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sábado, 8 de junho de 2013

De Brunheda ao Tua, a pé

Já decorreu algum tempo desde que fiz a última caminhada na Linda do Tua, embora por lá tenha passado por diversas vezes, nalgumas iniciativas. Mas percorrer a linha, focando toda a atenção no vale do Tua, na linha e no rio, é uma experiência que não me canso de repetir.
O desafio partiu de um amigo de longa data, defensor da Linha do Tua e entusiasta da fotografia. Foi alargado a um grupo de pessoas, mas por questões de agenda, de logística ou outras, acabámos por ser apenas 3 a aventurarmo-nos nesta caminhada de cerca de 20 km.
Caminhar foi uma das componentes, porque houve tempo para muita conversa, muita curiosidade sobre aspetos relacionados com a linha e outras estruturas por onde passámos e muitas fotografias, paixão comum aos três caminheiros.
A caminhada teve início junto à estação de Brunheda, ainda bastante cedo. O céu estava muito nublado com algumas abertas, muito pouco convidativo à fotografia, mas há sempre desafios que utilizar a pouca luz existente.
 A primeira curiosidade, já por mim verificada na estação de Abreiro, é a de que alguma tipo de estrutura se tem deslocado sobre os carris. Tivemos alguma atenção e os carris são usados até muito próximo de S. Lourenço. Aí há um desvio há uma rocha na linha, originada numa queda, e o que quer que tenha circulado teve que voltar para trás.
A estação de S. Lourenço foi vandalizada. Já passei várias vezes por lá e estava sempre fechada, mas desta vez estava aberta. Este edifício é de construção recente e nunca despertou a mínima curiosidade. Desta vez entrámos, para ver os estragos. Foram roubados lavatórios, sanitas e portas, pouco mais havia para roubar.
Após S. Lourenço a paisagem é de puro maravilhamento (se é que a palavra existe). Perder-se a ligação com a "civilização", saber que não há hipótese de desistir e que o único caminho é seguir em frente, dá oportunidade de  olhar todo o espaço em redor de uma forma única. A companhia do barulho das águas, a agressividade da escarpa rochosa, a beleza natural com que esta época do ano veste cada centímetro de terra onde as raízes se podem fixar.
Para completar esta paisagem poética surge a aldeia do Amieiro. Vista da outra margem, é difícil imaginá-la com ruas estreitas, íngremes, cheia de casas humildes e e de gente idosa. Vista da linha não é mais de que um aglomerado de casas carinhosamente colocados na encosta, tal qual como colocamos a cabana e os pastores no musgo do presépio. É isso que o Amieiro é, um presépio.
O rio percorre um caminho cada vez mais agreste, visível nas escarpas rochosas que limitam e  orientam o seu caminho há milhares de anos.
Junto ao Castanheiro paramos para almoçarmos. Uma forte chuvada obrigou-nos a esperar alguns minutos (poucos), antes de descermos à bonita praia de areia branca que está próxima desta estação. Confesso que nunca tinha descido ao rio! Sempre que por ali passei a vontade de continuar foi mais forte do que a de descer ao rio e explorar a bonita praia e o conjunto de azenhas que ali deve ter existido. A companhia e o fato de  estarmos sem qualquer necessidade de cumprirmos horários fez com que esta fosse um boa oportunidade de conhecer esta pequena praia.
Pude verificar que o mexilhão que habitualmente apanho rio Sabor também existe no Tua. As conchas bivalves que encontrámos indiciam que são de um tamanho considerável.
Pouco tempo depois chegámos a Tralhariz. A paisagem continua  a ser magnífica não fosse o facto de já se avistar na outra margem o aterro retirado das obras da barragem. A  magia perdeu-se, nem a doses laranjas roubada, num terreno abandonado têm o mesmo sabor. A atrocidade que estão a fazer com a construção da barragem é de uma crueldade que dói.
Ao quilómetro 3 somos obrigados a abandonar a linha. É perigoso e proibido continuar. A linha já não existe, o rio já não existe. Ambos foram dominados, humilhados, desviados do seu caminho.
Subir até à aldeia de Fiolhal, não é fácil. Apesar de ser uma pessoa habituada a andar e do dia não estar especialmente quente foram precisas algumas paragens para chegarmos perto da aldeia.
Aproveitámos para procurar alguns pontos estratégicos para observar as obras da barragem. O sentimento dominante não era de resignação, mas sim de revolta. É difícil aceitar os argumentos do desenvolvimentos, da reserva de água, da beleza que o vale pode vir a ter ou da energia que poderá produzir. Não somos "turistas", esta é a nossa terra, este é um património que nos estão a tirar sem hipótese de vislumbrarmos benefícios, além dos evidente para a EDP.
A destruição já é muita, mas nada que fosse impeditivo de parar definitivamente as obras. Aos defensores da teoria de que agora já não vale a pena parar as obras porque o mal já está feio, só me apetece perguntar: aceitariam casas uma filha com alguém que a violou? O mal já foi feito.
Já tínhamos um carro em Fiolhal, deixado lá às primeiras horas do dia. Gostaríamos de ter  continuado pela linha até Foz-Tua, mas não nos restou outra alternativa senão a de descermos pela estrada.
Já em Foz-Tua fomos até à ponte rodoviária sobre o Tua. A paisagem em redor é desoladora. Muitos pescadores enfrentam o perigo e continuam a pescar na zona das obras.
Num restaurante da aldeia constatámos que os benefícios de ter muitos clientes das obras, sobretudo a mão de obra mais qualificada e com salários mais altos, não resulta num encaixe que permita a satisfação. Servir bem, produtos de qualidade, incluir entradas e vinho de marca, e cobrar 6€ por refeição, é caso para dizer, mais valia estar parado.
Esta fotografia já foi tirada há algum tempo atrás
Chegámos ao fim da nossa viagem satisfeitos. Tivemos pena que não houvesse mais gente para nos acompanhar, mas, se calhar, não podíamos ter feito o percurso como o fizemos.
Estou com esperança que esta não seja a minha última viagem no vale do Tua. Não porque acredite que os responsáveis políticos deste país ganhem juízo, nem os autarcas aqui ao lado o têm (o capital domina a nossa existência), mas porque não aceito despedir-me tão rápido desta paisagem única, uma das maiores riqueza da nossa região.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Pinhal do Norte - Trilho do Vale do Tua

No dia 14 de abril, na aldeia de Pinhal do Norte, teve lugar mais uma caminhada "por terras de Carrazeda de Ansiães". Depois de ter estado ausente de algumas realizações do género, por incompatibilidade de agenda, foi com grande entusiasmo que voltei ao concelho, para percorrer a pé mais um cantinho.
O nome escolhido "Trilho do Vale do Tua" fez-me sonhar com o rio Tua,  a linha do comboio, com o apeadeiro do Tralhão e a estação de Brunheda. O mês de abril é um mês de vegetação em explosão e qualquer que seja o percurso tem, de certeza, muitas paisagens bonitas, espécies vegetais floridas e rochas grotescas, isto para não falar da companhia dos companheiros de outras caminhadas, de quem já sentia saudades.
Como pretendia continuar a tarde de domingo em Pombal, na XIX Prova de Vinhos, fui em carro próprio até ao Pinhal do Norte, onde pensava chegar primeiro que o grosso das pessoas. Enganei-me. Quando cheguei ao largo do Terreiro já aí estava uma pequena multidão e a azáfama era enorme. Foi com satisfação que revi tanta gente amiga, que já não via há algum tempo (mas mantemo-nos mais ou menos próximos via Internet no Facebook).
As mesas encheram-se para o pequeno almoço. Estes "mata-bichos" bem servidos são já uma característica destas caminhadas. Alguns comem outros poupam-se, para se manterem mais leves. Estou em crer que a grande maioria das pessoas não se preocupa muito com a "linha"; com a saúde sim, mas com a "linha" não.
O "pelotão" partiu pela rua de S. Bartolomeu para a Igreja Matriz. Apressei-me para lá entrar, mas estava fechada. Subimos à estrada N314-1 e tomámos uma caminho em direção ao rio Tua. Esta parte do percurso já era nossa conhecida de III Rota das Maias - realizada em Maio de 2012. Pouco depois abandonámos esse trajeto e seguimos em direção à Quinta do Tralhão.
Estava convencido que desceríamos à linha do Tua e seguiríamos por ela até Brunheda, mas enganei-me. Mal vimos a linha e o rio também ficou a grande distância.
A vegetação espontânea estava em plena floração e abundavam cores e perfumes por todo o lado. Pela primeira vez nestas caminhadas "esqueci-me" das fotografias e fiz quase todo o percurso a conversar com outros caminhantes.
Passámos junto a uma formação rochosa onde era possível "ouvir" os sinos de Braga. A mesma "sinfonia" e o mesma tradição acontece em muitos outros locais. Não sei se houve alguém a cair na "esparrela". Se alguém mais inocente encosta a à rocha logo é empurra violentamente contra ela, fazendo "ouvir" sinos e outras campainhas, acompanhadas por alguma dor de cabeça.
Também vi de longe uma rocha de que já tinha ouvido falar. É conhecida pela Capela do Diabo. É uma formação natural que parece formar uma nave, ao estilo de uma capela-mor de uma igreja. Não a imaginava tão grande nem tão perfeita. A capela e os "Sinos de Braga" são referidos por Alexandre Parafita no seu livro Património Imaterial do Douro (Narrações Orais), Vol. 2.
A extensa e promissora Quinta do Tralhão mostrava sinais do mais completo abandono. As vinhas em socalco, ainda jovens e cheias de força para produzirem uvas, não foram podadas! No coração das vinhas começámos a rota ascendente, encosta acima, num passo mais cadenciado e ofegante.
Atingimos o traçado do IC5 e avistámos a obra admirável que é a ponte sobre o rio. Lembro-me que há muitos anos atrás as pessoas iam a Brunheda só para verem a ponte altíssima que construiram sobre o rio Tua. Essa ponte comparada com a que a agora foi construida para o IC5 parece um brinquedo.
Avistámos as casas de Brunheda. Desviei-me um pouco do percurso seguindo com algumas pessoas por um caminho rural que nos pareceu mais bonito para acedermos à aldeia. Entrámos pela sua zona mais a poente, onde existe uma fonte antiga e uns bonitos tanques que já fotografei há alguns anos atrás.
Como sabia que havia muita gente para trás (e ainda nem sequer era meio dia) aproveitei para fazer um passeio por algumas ruas da aldeia.  A igreja estava fechada. Tenho pena de não a ter podido ver porque é das poucas do concelho onde nunca entrei.
O almoço foi servido na antiga escola Primária. À distância já cheirava a carne assada e as mesas já nos esperavam quase prontas. A caminhada teve perto de 200 participantes e não foi fácil saciar tanta boca. Inicialmente cada travessa de carne assada colocada na mesa desaparecia num piscar de olhos, mas passado algum tempo já se viam tabuleiros cheios. A refeição iniciou-se com a sopa, continuou com carne assada (barriga, e fêveras de porco e frango no churrasco) e salada de alface. Havia bom pão, melhor vinho e fruta para o final.
Ainda houve tempo para um café no bar do Sport Brunheda Benfica, que funciona na escola. Pouco depois o autocarro partia para Pinhal do Norte. Apanhei a primeira viagem, porque queria estar no Pombal antes das portas do salão se abrirem para a Prova de Vinho.
Em termos de balanço, ocorrem-me os seguintes comentários:
  • Para mim a caminhada foi curta, à volta de 8,5 km, que foram percorridos em pouco tempo.
  • O dia esteve bom para caminhar: um sol bonito mas um ar fresquito que ajudou a manter a boa disposição.
  • Foi bom ver tanta gente a caminhar. Havia mesmo um grupo de caminheiros de Valpaços! É bom que estes eventos comecem a cativar gente de fora que queira conhecer o concelho.
  • Gostaria de encontrar as capelas e as igrejas abertas; esta é uma oportunidade única de mostrar o património de cada aldeia.
  • Parece-me que devia haver pontos intermédios, ao longo do percurso, onde o grupo se se reagrupava. Não acho que os participantes devam ir todos os monte, mas também não devem ir muito dispersos.

GPSies - Pinhal_Brunheda

sexta-feira, 8 de abril de 2011

1 dia por terras de Ansiães (04)

 Não tenho dado continuidade à rubrica 1 Dia por Terras de Ansiães, não porque eles não tenham acontecido, mas simplesmente porque os dias têm 24 horas, e, por vezes, são poucas.
Hoje passei mais 1 Dia por Terras de Ansiães. Entrei pela Brunheda, vindo de Milhais e Sobreira, onde me deliciei com as encostas das montanhas pintadas como se fossem telas. São as urzes, carqueja, giestas e sargaços que criam manchas de cores dignas dos mais afamados artistas.
Antes de atravessar a ponte dobre o Tua ainda subi algumas centenas de metros de forma a puder apreciar a obra de engenharia que estão a construir. Trata-se de uma nova ponte sobre o rio, que vai integrar o IC5. Começa a ganhar forma e, aqui e entre Areias e Amedo, são dois pontos onde o betão vai levar o traçado pelas alturas. Não sou adepto do betão, mas o homem consegue fazer coisas fantásticas!
Nestes dias por Ansiães tenho privilegiado as sedes de freguesia e Brunheda pertence à freguesia de Pinhal do Norte. Decidi abrir uma exceção e parei o carro no largo do Olival, à sombra de enormes plátanos. Já visitei a Brunheda outras vezes, mas nunca de forma metódica, explorando todas as ruas, travessa e becos.
O panorama em Brunheda é o mesmo de todas as aldeias do concelho. Apenas me cruzei com duas ou três pessoas, quase todas idosas. Não se ouve o choro de um bebé ou o sorriso de uma criança. A escola primária é agora sede de uma associação, ponto de encontro aos domingos. Os jardins estão floridos como da última vez que aí estive.
 
Pela primeira vez percorri toda a rua Augusto Martins. É longa e levou-me a lugares onde nunca tinha estado. Um desses lugares foi aos tanques de lavar, agora sem uso. Trata-se de uma construção interessante, em granito, aparelhado, que estão bem preservados e limpos. Daí se tem uma bela vista em direção ao rio e a Carlão.
A paragem seguinte foi em Pinhal do Norte. Também não foi a minha primeira visita a esta aldeia. Curiosamente encontrei uma convocatória da Junta de freguesia com uma interessante fotografia da aldeia tirada por mim!
Almocei no Largo do Terreiro, à sombra da capela de S. Bartolomeu. Senti-me um privilegiado. A tranquilidade, o som dos pássaros e da água a jorrar da fonte condimentaram o farnel.
Após uma visita à bonita igreja matriz, afastei-me do povoado em busca das capelas da Senhora dos Aflitos e de Santa Marinha. Sempre que passava na estrada olhava para a capela de Santa Marinha e imaginava visitá-la um dia. Finalmente o dia chegou.
 
Apeteceu-me ficar junto dela, à sombra, com o perfume de vincas e violeta. A tarde não estava muito agradável, circulavam pelo ar nuvens de pólen dos pinheiros juntamente com poeira vinda da estrada em construção nas proximidades. Até a água do ribeiro corria completamente cheia de lodo!
De volta à aldeia, percorri algumas das ruas que desconhecia, como a Rua da Escola. Fiquei admirado com o espaço que há à frente da escola e também junto a um café, ali próximo. Só é pena que já não haja crianças apara aí brincarem.
 
Perdido, de rua em rua, fui encontrado pelo senhor Manuel, que me ofereceu um copo. Aceitei, o vinho do Pinhal não é de se recusar. No fresco da adega conversámos até ao fim da tarde. Quando tinha finalmente chegado à conversa com as pessoas o dia chegou ao fim. Senti pena, mas haverá outras oportunidades para  descobrir mais alguns dos recantos e encantos de Pinhal do Norte.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Acidente na Linha do Tua

Ocorreu, perto das 11 horas de hoje, um acidente na Linha do Tua, entre os apeadeiros da Brunheda e do Tralhão.

Mais informação no Blogue - A Linha é Tua - (http://alinhaetua.blogspot.com/)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Foz Tua - Abreiro (Parte II)

18/07/2008 Esta é a continuação da caminhada - Foz Tua - Abreiro (Parte I)

Depois da minha lenta progressão nos primeiros quilómetros, tinha que acelerar o passo, se quisesse chegar a Abreiro ainda com a luz do dia. Estavam percorridos os primeiros 10 quilómetros, mas ainda faltavam quase 20!
Acelerei o passo, pouco depois passou a automotora para Mirandela. Bem me apetecia apanhar boleia, mas ia desistir sem me ter empenhado a fundo?
Comecei a imaginar - Como iria encontrar o Amieiro? Devia estar completamente iluminado, como flor deslumbrante num jardim.

Seguia absorvido pelos meus pensamentos quando ouvi um guincho estridente vindo do rio. Pensei imediatamente nalgumas aves de rapinas que patrulham as margens. Talvez milhafres, mas são mais frequentes entre Abreiro e Mirandela, nunca nestas zonas de escarpas! Descobri uma mancha negra, na sombra das rochas, junto à água. Pouco depois, uma outra sombra se juntou à primeira. Os meus olhos não queriam acreditar no que seriam aquelas duas sombras, mas o meu coração acelerou. Levei o zoom da máquina fotográfica ao máximo, mas as rochas reflectiam de tal forma a luz do sol, que não conseguia distinguir nada. De repente, algo abandonou as rochas e dirigiu-se para a água. Agora não tinha mais dúvidas, eram lontras (Lutra lutra). Já tinha ouvido falar delas muitas vezes. Olhei as águas do rio à sua procura, mas não esperava encontrá-las ali, e o mais interessante, mais do que uma! Este mamífero tem o estatuto de Quase Ameaçado, embora a sua situação em Portugal seja de Pouco Preocupante. A sua população está em declínio desde os anos 60, 70 devido a um conjunto de factores como a destruição da vegetação rupícola e a poluição das águas. Vivem isoladamente, por isso, talvez tenha presenciado o encontro de um macho com uma fêmea, uma vez que também se reproduzem no Verão. Os machos têm um território que pode atingir até 10 quilómetros. A minha vontade era esquecer a linha e descer para junto das águas do rio, para observar as lontras. Uma delas mergulhou nas águas e nadou com toda a agilidade que lhes é reconhecida, rio abaixo, desaparecendo por detrás da folhagem. A outra permanecia na sombra das rochas, confundindo-se com ela.

Este encontro inesperado deu-me forças para caminhar mais rapidamente. Nunca mais afastei, por muito tempo, os olhos do rio, no intuito de ver novas lontras, mas isso não voltou a acontecer.
Comecei a ver ao longe as primeiras casas do Amieiro. Esta aldeia dá uma imagem única da Linha do Tua. Não há ninguém que passe na linha que não se encante com este postal ilustrado. Parece um presépio montado, daqueles que existia antigamente em muitas igrejas (ainda existe na de Vila Flor), com as casinhas todas encaixadas a diferentes cotas, pequeninas, com uma igreja branca, com uma torre afiada, ainda mais branca, destacando-se do conjunto. A paz era completa! Quem se atreveria a desafiar os mais de trinta graus da uma da tarde? Nem o rio se ouvia, apenas os meus passos e o cantar das cigarras. Um rabirruivo juvenil acompanhou a minha passagem pela estação de Santa Luzia com uma evidente curiosidade.
Começava a ficar preocupado com as reservas de água, mas, tinha esperança de a encontrar perto do S. Lourenço.

Nesta zona da linha há alguns medronheiros (Arbutus unedo), mas os seus frutos ainda mal de vêem. Logo depois da estação de Santa Luzia há uma espécie de pequena cascata. Deve ser um bom local para fazer descidas de kayak.
Uma das curiosidades que se segue, é um rochedo ao alto, perto do quilómetro 15. Desta vez não tinha as nuvens brancas a decorar o céu azul, mas mesmo assim ensaiei várias fotografias.
Pouco depois está um depósito de água, já meu velho conhecido. Está muito sujo, apenas goteja e tinha mau aspecto. Continuei com a água que tinha. Ao chegar ao apeadeiro de S. Lourenço, ainda pensei em subir às termas, em busca de água potável, mas isso far-me-ia perder imenso tempo, além das energias que eram necessárias para subir até às casas que ladeiam as termas. Mais uma vez, decidi arriscar. Só já me restava uma pequena garrafa com água, teria que a poupar, a todo o custo.

Nesta zona da linha aparecem formações rochosas deveras curiosas. Nalguns lugares vêem-se linhas de quartzo incrustado no granito. Também junto às águas do rio se vêem formações semelhantes.
No quilómetro 17 havia outro bebedouro, mas estava completamente seco.
A agressividade da paisagem foi-se suavizando. No Tralhão o rio parece estar domesticado e as vinhas já chegam à linha. O cansaço e a escassez de água foram-me retirando algum prazer de fotografar. Subi à plataforma do apeadeiro para admirar a linha a maior distância.
Numa curva, ao 19º quilómetro avistei a ponte rodoviária da Brunheda, galgando o vale. Uma ave de rapina, a primeira desde o início da caminhada, veio cumprimentar-me, com a sua sombra que rasou a minha cabeça.

Neste local procedia-se à abertura da vala, junto à linha, para colocação de uma estrutura de fibra óptica. Não sei se os trabalhos só decorrem durante a noite, mas não havia ninguém a trabalhar. As máquinas estavam paradas um pouco depois da estação da Brunheda.
Parei uns instantes debaixo da ponte rodoviária. A sombra sabia-me tão bem! Eram três da tarde e o sol queimava-me o pescoço. A estação da Brunheda (agora apeadeiro) está no 21.º quilómetro, onde cheguei, depois de mais de oito horas de caminhada.
Tenho impressão que se passasse uma automotora, teria seguido nela: restavam-me algumas gotas de água; no apeadeiro da Brunheda não consegui encontrá-la, apesar de haver várias casas em redor; o calor era abrasador; as pernas manifestavam pouca vontade de me obedecerem; as fotografias já tinham pouco encanto.
Como chegar até Abreiro?

Esta aventura continua...
Mais fotografias relacionadas com a Linha do Tua no Blog:
A Linha é Tua (http://alinhaetua.blogspot.com/)

sábado, 3 de maio de 2008

Na Linha do Tua 4


No dia 1 de Maio tive tempo para mais uma etapa "À Descoberta da Linha do Tua". O meu plano era fazer o percurso que vai da estação da Brunheda a Foz Tua em duas caminhadas ao longo da linha. Mas, com os acontecimentos mais recentes que levaram ao encerramento, precisamente, desse troço da linha, as coisas complicaram-se. Acolhido de um ímpeto daqueles que é difícil controlar, decidi fazer todo o percurso numa só etapa.

Da estação de Brunheda a Foz Tua são 21 quilómetros. Além da distância, tinha que jogar com os horários da automotora para não ter que levar o carro até muito longe daqui ou ter que estar a incomodar outras pessoas. Depois da experiência entre o Cachão e Mirandela, achei que 21 quilómetros estavam dentro das minhas possibilidades para caminhar, não sabia era se a fotografia me iria deixar tempo para fazer todo o percurso. Caso não conseguisse, as dificuldades em voltar a casa seriam mais do que muitas, visto que, entre a ponte na Brunheda e o Tua, não há nenhum local com grande movimento de pessoas ou de viaturas.

A força de um desafio, ultrapassa por vezes a razão, e, na manhã do dia 1, estava bem acordado mal despontou o sol. Tinha planeado tudo muito bem durante a noite: ia de automóvel até à Ribeirinha; seguia de automotora até à Brunheda; tomaria o táxi que faz o transbordo dos passageiros até ao Tua; teria aproximadamente 6 horas para fazer o percurso, linha acima, a tempo de voltar a apanhar a automotora na Brunheda próximo das 19 horas.
Preparei a mochila. Vai estar calor ou vai fazer frio? Quanta água vou beber? Levo uma lanterna? E o almoço? Sou muito prático com todas estas coisas e alguns anos de caminhadas deram-me alguma experiência.
Às nove horas já andava a fotografar as ruas mais típicas em Vilas Boas. Desci calmamente até ao Rio Tua. O dia prometia. Estava fresco, havia muito orvalho mas quase não se viam nuvens. O amarelo das maias contrastava com o verde das oliveiras. O monte do Faro parecia ainda não ter acordado, mas a Serra dos Paços, no concelho de Mirandela, estava radiante, esticada ao sol.

Quando cheguei à estação da Ribeirinha, o meu amigo Abílio ficou contente por me ver. O sr. Abílio é o “guardião” da linha. Mora na estação e conhece toda a linha palmo a palmo. Veio da Urrós, Mogadouro e por aqui trabalhou enquanto os ossos aguentaram. Quando fala, recorda com saudade os tempos em que percorria a linha, a altas horas da madrugada, fazendo reparações aqui e além, para que no dia seguinte tudo estivesse pronto. Nota-se-lhe na voz algum desalento e fala do encerramento da linha, como fala da sua hérnia ou nas suas pernas que já demoram a obedecer. Caminhámos perto da linha durante alguns minutos. A erva alta encharcou-me as botas. Já nem há burros na Ribeirinha para pastarem aquela viçosa erva, há apenas um burrico e uma mula, para puxar uma carroça ou para lavrar alguma pequena horta.
Andávamos por ali entretidos com a conversa, quando chegou outro automóvel. Trazia 4 técnicos que vestiram os seus coletes florescentes e se puseram a fazer medições, via fora, resistindo aos nossos olhares desconfiados.

Às dez e trinta minutos chegou a automotora. Com medo que não parasse, acenei-lhe, mas a Ribeirinha é paragem obrigatória.
Quando o revisor se aproximou para me tirar o bilhete, soube a novidade. A automotora já não seguia até à Brunheda, ficaria em Abreiro, 13 quilómetros mais abaixo. A notícia baralhou-me por completo. Durante esses quilómetros, com paisagens magníficas, dividi-me entre o multicolorido dos montes e a reformulação do plano. Em Abreiro já nos esperava uma carrinha táxi, por sinal conduzida por um meu conhecido, de Carrazeda de Ansiães. Não sobrou um lugar. Éramos precisamente nove, contando com o revisor. Seguimos em direcção a Abreiro, Milhais e depois Sobreira. Este percurso é bonito, acreditem. O céu pintou-se de um azul carregado; apareceram algumas nuvens brancas; só me apetecia pular daquele táxi e ficar mesmo ali gozando a liberdade de um dia fantástico, longe de tudo que nos aflige no dia a dia. Fiquei um pouco mais abaixo, plantado em plena ponte da Brunheda, sobre o Rio Tua e sobre a linha.
Decidi fazer o percurso ao contrário do que tinha planeado, sairia da Brunheda em direcção a Foz-Tua. Mal o táxi arrancou, desci à linha, não tinha tempo a perder.

Foi um início de caminhada fantástico! Todos os elementos naturais se conjugaram de forma tão perfeita que receei, logo ali, não ter tempo suficiente para chegar ao Tua. O ar estava fresco; o céu tinha um azul intenso salpicado de nuvens mais brancas do que a neve; o rio corria forte, embora o seu caudal tivesse baixado nos últimos dias; as encostas do vale brilhavam de um verde puro, salpicado com manchas de várias cores; a linha descia em direcção a Sueste ladeada por tufos de flores. Olhava para trás a cada dezena de metros percorridos. A posição do sol fazia com que, precisamente nas minhas costas, a luz tivesse as condições ideais para ser polarizada e provocar aquele céu azul que eu tanto gosto.
A primeira paragem foi no apeadeiro de Tralhão. Nem todos saberão, mas tralhão é uma designação regional para uma ave. Este apeadeiro fica plantado aqui no meio do nada. Penso que serviria a aldeia de Pinhal do Norte, mas desconheço se há alguma estrada que lhe dê acesso. Não tem telhado mas sim uma placa de betão, transformando o apeadeiro num interessante miradouro sobre a linha e sobre o rio. Subi as escadinhas e tirei algumas fotografias. Nas traseiras do edifício há um curioso forno, de forma rectangular, coberto por um telhado com duas águas.

Um pouco depois, numa curva da linha, avistei algumas casas cravadas na encosta em frente. Era S. Lourenço. O tempo parece ter parado nas ruínas das casas. Há mais de duas décadas passeei bastante por este local. Não fora o edifício da estação e eu dizia que nada por aqui mudou. As velhas casinhas com alpendre de madeira lá continuam, em ruína, como sempre estiveram. Bem gostava de ter subido junto à fonte, pedir ao santo boa sorte para a caminhada, visitar a pequena capela, quem sabe beber uma garrafa de água fresca na taberna onde tantas vezes comprei tremoços, nas tardes de domingo.

Concentrei-me de novo na linha. Faltavam-me 15 quilómetros para o Tua e, embora tenha planeado o percurso do Tua para a Brunheda, sentia que me estava a atrasar. Pouco depois de deixar a estação das termas de S. Lourenço, encontrei um dos rochedos mais pitorescos de todo o percurso. Parece plantado entre a linha e o rio por uma mão poderosa, para nos impressionar, qual estátua de basalto na ilha de Páscoa. O céu, agora com bastantes nuvens, criava zonas de sol e sombra complicando a fotografia. Esperei alguns minutos que a construção se iluminasse e disparei algumas fotografias sem grandes preocupações de enquadramento.

Continuei a viagem, desta vez em passo bastante apressado. Nem a visão fugaz do primeiro medronheiro me fez abrandar. Esta zona é bastante bonita. Há muita vegetação, constituída principalmente por giestas, zimbros, sobreiros e pinheiros literalmente cravados nas rochas. O rio corre muito próximo, apertado de ambos os lados por grandes blocos de granito tão duro que raramente evidencia marcas das correntes de séculos. Não resisti a um tufo de madressilva pendurada sobre o rio e descansei um pouco.

Numa curva da linha avistei o Amieiro. A pequena aldeia, pendurada na montanha, é muito fotogénica. Era uma e meia da tarde e nada mais se ouvia além do som da água batendo em rochas ciclópicas. Que panorâmica magnífica se deve ter desta aldeia! Senti curiosidade em conhecer o teleférico, ou o que resta dele, que traz as pessoas para a estação de Santa Luzia. De um lado do rio a aldeia, do outro a pequena estação rodeada de rochedos que ameaçam esmagá-la a cada instante. É um lugar solitário, de paz, onde apetece parar e deixar o tempo passar, sem preocupações. Saí dali com pena, a passo lento. Aproveitei para comer alguma coisa, enquanto caminhava. Estava sensivelmente no quilómetro doze. Pouco depois atravessei uma ponte, penso que se trata da Ribeira do Barrabáz. No alto das montanhas é a Aborraceira, um local onde espero ainda ir um dia.

Entre o quilómetro 9 e o 10 há um túnel, em curva, o maior de todos os seis que existem na linha. É o Túnel da Falcoeira. Apesar do nome sugerir aves de rapina, não vi nenhuma durante todo o percurso. Curiosamente o dia não estava muito bom para observação de aves. Quase posso resumir a lista de aves que vi : perdizes, pombos-torcaz, melros, melros azuis, tentelhões e andorinhas das rochas. No que toca à flora, destaco o medronheiro de que já falei, a giesta (Cytisus scoparius), a urze (já sem flor), a dedaleira (Digitalis purpurea L.), encontrei uma completamente branca, nunca tinha visto, espadana dos montes (Gladiolus illyricus), madressilva (Lonicera etrusca)…entre outras.

Também encontrei bastantes ninhos de pequenos passeriformes nos barrancos da linha. Alguns deles tinham ovos.
O rio faz um apertado cotovelo e, logo depois, aparece o pequeno apeadeiro de Castanheiro quase escondido na encosta. Perto deste havia dois ou três veículos automóveis e junto ao rio estava uma meia dúzia de homens. Estavam todos entretidos, pelo que pude perceber a estripar peixes! Perto deles, nos rochedos, estava uma enorme panela de ferro, daquelas que usavam para cozer os ossos das alheiras! Deu-me impressão que se preparavam para fazer uma valente caldeirada. Reconheci alguns, eram de Carrazeda de Ansiães. Ainda pensei em ir conversar com eles, mas segui viagem.

Pouco depois encontrei uma zona da linha que parecia ter sido mexida recentemente. Devia ser o local onde ocorreu o acidente de 12 de Fevereiro de 2007, em que perderam a vida três pessoas. O local não é, nem mais, nem menos perigoso, do que a maior parte da linha. Nos percursos que já fiz, vi com frequência pequenas pedras que se desprenderam por causas naturais e rolaram até perto da linha. Em muitas locais já foram colocadas protecções, mas é impossível coloca-las em todos os locais onde há perigo. Viajei bastante na linha do Douro e sempre tive receio que um dia o comboio descarrilasse para o rio. Felizmente nunca aconteceu.
Entre o quilómetro 5 e o quilómetro 7 há dois túneis. Este sim é um local assustador. Entre os dois, o Túnel Fragas Más e o Túnel do Boitrão, a linha é suportada por uma estrutura de betão com alguns metros de altura. É uma das zonas mais agreste e a mais assustadora de todo o percurso.

Neste local há uma outra atracção, mas do lado oposto do rio, em território do concelho de Alijó. Trata-se de um conjunto de pequenas cascatas, que só terminam quando a água da Ribeira de S. Mamede atinge o rio. Tive sorte porque a ribeira ainda corre bastante água e a paisagem estava um encanto.
Pouco depois surge um outro túnel, o Túnel da Aveleda que antecede a estação de Tralhariz. A paisagem muda bastante neste local. Começam a ver-se muitos socalcos com oliveiras principalmente na margem esquerda do rio. As vinhas também começam a marcar presença.

A luz começava a estar mais baixa, tentando entrar pelo vale acima. O céu perdeu o brilho da manhã e início de tarde, mostrando-se agora cheio de neblina com a luz difusa. Quer os meus olhos, quer os meus pés já ansiavam por ver os vinhedos do Douro, mas ainda faltavam 3 quilómetros. Perto da foz do Tua as margens ganham de novo altura e a dureza do granito. O leito estreita-se formando uma garganta de paredes verticais de rocha pura e nua. É neste local que se planeia a construção da barragem. Já se avistava a ponte sobre o Tua e os vinhedos do outro lado Douro. Depois de um pequeno túnel há uma ponte metálica, o Túnel e a Ponte das Presas. À volta da ponte, há uma estrutura metálica e obras de restauro na mesma.
Já se avistam as casas de Foz Tua e o olhar alonga-se ao correr do Douro.

Cheguei à estação às seis horas menos um quarto. A calma era total. Entre sentar-me num banco a descansar um pouco, comer alguns mantimentos que ainda tinha comigo, ou dar um passeio pela estação, admirando velhas glórias dos caminhos-de-ferro que por ali se encontram, optei por esta última. Há algumas composições da via estreita que vão morrendo aos poucos. As portas estão abertas, arrancam-lhe os bancos, as lâmpadas e partem-lhe os vidros. O cenário é degradante.
No interior da estação há algumas peças museológicas dos caminhos-de-ferro. Estas sim, bem cuidadas e apresentadas.
Chegou uma composição procedente do Pocinho e uma outra do Porto. Ambas partiram rumo aos seus destinos e eu abandonei a estação à procura do táxi. Na viagem de regresso éramos apenas dois passageiros e o revisor. Mantivemo-nos os três, até que abandonei a composição do metro, na Ribeirinha.

O percurso de regresso a Abreiro até é interessante, mas não me parece que seja o que os turistas que vêm viajar na Linha do Tua, pretendem ver. Saímos do Tua às 18:22 e fizemos o seguinte percurso: Ribalonga, Castanheiro, Paradela, Pombal, Pinhal do Norte, Brunheda, Sobreira, Milhais e Abreiro . Perto da Sobreira cruzámos com outros dois táxis que faziam o percurso inverso.
Às 19:35 estava de volta à Ribeirinha. Tinha o sr. Abílio à minha espera, para saber as novidades sobre a linha.
Subi a Vilas Boas quando os últimos raios de sol quente iluminavam o cabeço de Nossa Senhora da Assunção. Vinha contente. Tudo correu bem. Fisicamente sentia-me bem. O dia também esteve agradável para caminhar, não fazendo muito calor. Não tive nenhum percalço no percurso, o que teria sido muito mau, uma vez que só há rede de telemóvel (da rede que uso) no Amieiro e depois de deixar o Tua em direcção a Ribalonga.

Em termos fotográficos, foi um dia muito produtivo. Depois de apagar algumas fotografias exageradamente falhadas, sobraram 1390, que dá uma média superior a 6 fotografias por cada 100 metros. Preferia ter feito o percurso em duas etapas. Teria tido mais tempo para dedicar a determinados aspectos da fauna e da flora, até mesmo da linha e do rio, que gostava de explorar. Quem sabe se esta não foi só a minha primeira viagem a pé, de Mirandela a Foz Tua?
Ligação para a 1.ªetapa entre Cachão e Ribeirinha
Ligação para a 2.ªetapa entre a Brunheda e Ribeirinha
Ligação para a 3.ªetapa entre a Cachão e Mirandela
Ligação para a 4.ªetapa entre a Brunheda e Foz-Tua

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