31 «Por muito anos e bôs» se cantam as janeiras pelas balcoadas e escaleiras, em cantares muito antigos e arrastados, pedindo à senhora da casa que do seu banco de cortiça lhes dê um salpicão ou uma chouriça. Esta usança teve origem nas festas saturnais celebradas pelos romanos em honra de Saturno.
No dia um de Novembro fumegam as castinceiras. É o tradicional dia dos magustos. A castanha, de cuja farinha os primeiros se alimentavam, salta das brasas, sofregamente disputada. O ingénuo e, geralmente, o mais novo, ia procurar, a mandado dos outros, uma giesta molhada para apagar a fogueira. Quando regressava, as castanhas já tinham sido devoradas. Era o «molhar da giesta».
Fonte do texto: Carrazeda de Ansiães e o seu termo; José Aguiar, 1980. Edição da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Como sombras no muro
06 de Agosto de 1998
A mamã agora deve ter-se distraído porque não fez força nenhuma para me agarrar a mão e eu tirei-a devagarinho e já posso chegar ao pingo de cera branca que está entre as duas tábuas; mais à frente há outros bocadinhos mesmo aos pés das pessoas e um maior que eu gostava de apanhar, mas está longe, está mesmo ao pé do degrau do altar em cima do tapete vermelho comprido que vai até à porta; eu nunca tinha visto um tapete assim tão grande e as pessoas não ficam em cima dele, se calhar não se pode, vai mesmo até à porta grande da rua que está aberta e deve ser para entrar o ar porque está muito calor; a dona Maria, que é a mãe da dona Isaura, está mesmo no banco à nossa frente e se eu contar até doze sei que ela vai olhar para trás para a mamã e depois pegar no lenço que tem dentro da saia e esfregar a cara para cair o suor e depois continuar a falar baixinho que eu bem ouço mas não percebo nada, eu queria ficar ao lado da avó mas a mamã disse-me baixinho mas com força quando entrámos e a abanar-me o braço
- Ficas aqui ó meu lado e portas-te bem, oubiste?
e agora a mamã está sempre a abraçar a avó com o outro braço e olha sempre lá para a frente onde estão os jarros grandes quase ao pé do tecto com flores vermelhas rodeados de velas que não tremem, a avó não chora porque não se ouve nada e está quietinha, não é como dona Isaura que eu vejo escorrer sempre a mesma lágrima juntinho ao nariz ao pé do sinal grande; o menino que é um pouquinho maior que eu tocou o sino quando o senhor padre ergueu os braços ao alto e o som fininho que me faz lembrar um arame ainda está a tremer nos meus ouvidos; a mamã nem viu que tirei a minha mão de dentro da mão dela e se quiser posso ir até lá à frente pegar no bocado grande de cera que caiu em cima do tapete vermelho como as flores que estão à volta do altar e na roda grande de flores que nem sei como juntaram assim as flores todas e está em cima do caixão onde o avô está deitado muito quietinho porque está morto; a dona Isaura não diz caixão diz urna, eu ouvi-a dizer quando estava no banco ao pé do Fiel a fazer de conta que era o avô e ficava muito tempo sem pestanejar a olhar para o céu e
as andorinhas andavam à volta dos telhados
- Arranjou-se uma bonita urna e parece qu'é mesmo de pinho!
Excerto do romance Como Sombras No Muro, da autoria de Gilberto Pinto, editado pela Editorial Escritor Lda em 2003.
Gilberto António Pinto nasceu em Carrazeda de Ansiães, em 1964.
Actualmente reside no Porto, onde é professor no Instituto Superior de Engenharia.
A sua actividade desde há muito que se divide entre a docência, a investigação científica e a literatura.
Como Sombras no Muro é o seu primeiro romance.
Fotografia: Lameiros perto de Marzagão.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Livros - "Fogo e Lágrimas 2"
Numa das minhas visitas à Biblioteca Municipal de Carrazeda de Ansiães encontrei o livro Fogo e Lágrimas 2 - Poemas-, da autoria de Morais Fernandes. Não sendo um grande apreciador de poesia, gosto daquela que fala de coisas da terra, sejam elas vivências, locais, ou qualquer outro aspeto que possa ajudar na minha Descoberta.
Alguns dos poemas agradaram-me, outros, nem tanto. Há alguns com uma forte carga ideológica, política, até religiosa que o autor assume, mas que não compreendo, nem partilho. No entanto, não posso deixar de saborear e mostrar no blogue alguns poemas que me parecem muito bons.
Há dias, no lançamento de um livro de poemas, conversava eu com o autor da obra a ser lançada sobre o que é bom, ou menos bom, em literatura. Para mim, é bom aquilo que me desperta emoções, que me faz viajar, que me transporta para um mundo diferente daquele em que me encontro. Quando dou comigo a saborear as palavras como se de um prato refinado se tratasse, ou como a ouvir as notas de uma bela peça musical, então a escrita é boa. Como não gostamos todos do mesmo prato, nem das mesmas músicas, também não gostamos dos mesmos textos ou dos mesmos poemas.
Morais Fernandes nasceu em Linhares. Escreve a sua terra e as suas vivências (também num período muito conturbado). O título do livro, Fogo e Lágrimas, sugere algo forte, mesmo violento. Os poemas que pretendo partilhar, de vez em quando, são exceções.
Notas sobre o autor, transcritas do livro
Ao Povo Transmontano
Sabes fazer amigos, que amigo és Tu,
Já que em teu peito reina a Forja do Bem;
Que abraço verdadeiro, fraterno e nu,
Só nasce no coração de quem o tem!...
Não o abraço protocolar do momento,
Ou a conveniência da ocasião;...
Mas o forte e profundo sentimento
Que, à força do Bem, pões força e razão!
E, já das lavas do reino de Vulcano,
São tuas mágoas de bênção e de amor,
- Grinaldas, elmo do Povo Transmontano.
Assim nasceste e assim viverás!
Alma em fogo, o teu peito de granito,
Transmontano irmão, tudo vencerás;
Teu corpo é dor, tua alma infinito.
Luta até ao último adeus, - à morte, -
No frio ardente do gelo da sorte!...
Linhares, 1 de Abril 1993
Alguns dos poemas agradaram-me, outros, nem tanto. Há alguns com uma forte carga ideológica, política, até religiosa que o autor assume, mas que não compreendo, nem partilho. No entanto, não posso deixar de saborear e mostrar no blogue alguns poemas que me parecem muito bons.
Há dias, no lançamento de um livro de poemas, conversava eu com o autor da obra a ser lançada sobre o que é bom, ou menos bom, em literatura. Para mim, é bom aquilo que me desperta emoções, que me faz viajar, que me transporta para um mundo diferente daquele em que me encontro. Quando dou comigo a saborear as palavras como se de um prato refinado se tratasse, ou como a ouvir as notas de uma bela peça musical, então a escrita é boa. Como não gostamos todos do mesmo prato, nem das mesmas músicas, também não gostamos dos mesmos textos ou dos mesmos poemas.
Morais Fernandes nasceu em Linhares. Escreve a sua terra e as suas vivências (também num período muito conturbado). O título do livro, Fogo e Lágrimas, sugere algo forte, mesmo violento. Os poemas que pretendo partilhar, de vez em quando, são exceções.
Notas sobre o autor, transcritas do livro
Joaquim Morais Fernandes - Médico, nascido a 5 de Julho de 1917, no lugar e freguesia de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães - Bragança.
Filho de Carlos Augusto Morais e Maria Augusta Fernandes.Autor de Fogo e Lágrimas e do presente - Fogo e Lágrimas 2.
Ex Delegado de Saúde. Fundador do centro de Saúde e do Ensino Secundário Liceal em Carrazeda de Ansiães.
Ao Povo Transmontano
Sabes fazer amigos, que amigo és Tu,
Já que em teu peito reina a Forja do Bem;
Que abraço verdadeiro, fraterno e nu,
Só nasce no coração de quem o tem!...
Não o abraço protocolar do momento,
Ou a conveniência da ocasião;...
Mas o forte e profundo sentimento
Que, à força do Bem, pões força e razão!
E, já das lavas do reino de Vulcano,
São tuas mágoas de bênção e de amor,
- Grinaldas, elmo do Povo Transmontano.
Assim nasceste e assim viverás!
Alma em fogo, o teu peito de granito,
Transmontano irmão, tudo vencerás;
Teu corpo é dor, tua alma infinito.
Luta até ao último adeus, - à morte, -
No frio ardente do gelo da sorte!...
Linhares, 1 de Abril 1993
terça-feira, 29 de junho de 2010
Livros - "O violino do meu pai"
Anda por estas terras sem contar o tempo, porque não tem idade. Dele dão testemunho os frios gelados e os sóis abrasadores, o seu corpo de granito e a sua alma de vento. É o espírito da terra, o génio que paira sobre estes montes a que muitos deram nome.Comprei, na recente realizada Feira do Livro, o romance "O violino do meu pai: Partir ou Ficar em Trás-os-montes" da autoria de Campos Gouveia. Confesso que foi um pouco pela curiosidade porque, apesar de conhecer pessoalmente o autor e ter lido algumas das suas contribuições na imprensa regional, o romance está longe de ser a literatura que me apetece ler. Quando desfolhei as primeiras folhas e li os primeiros parágrafos, fui agradavelmente surpreendido. A escrita cativou-me. O enredo desenvolve-se numa época que não vivi, mas o espaço é-me familiar. Utiliza uma linguagem simples mas sensível.Viu passar as gerações como aves de arribação, mas só ele permanece nestas pedras eternas, teimosamente imóveis desde a aurora da memória, testemunhas mudas de lutas e tradições, de canseiras e suores, de aventuras pessoais ignoradas da história, de destinos enterrados após luta titânica pela sobrevivência, pela dignidade. O génio das fragas. Deposita um sopro na alma dos que aqui nascem e eles lho devolvem quando regressam ao seu seio; acompanha-os pela vida, curta ou longa, segue-lhes as aspirações e recolhe as suas angústias, as suas solidões; quando os traz de volta, aviva-lhes a memória e dá-lhes sentido à vida. Muitos dos que aqui viveram não sabiam de si o nome ou a pertença. Outros passearam pelos seus campos e florestas, apascentaram os gados e caçaram os javardos, comeram os frutos e beberam o hidromel. Outros mais tarde deram-se nome e identidade, iberos, celtas, banienses, ástures, pagus aunecus. Por aqui passaram romanos, godos e mouros. Apesar das guerras e ermamentos, nunca estas suas terras ficaram desertas: o seu sopro de vida manteve homens e gados, garantiu descendências e sobrevivências, até que os seus filhos se organizaram e hierarquizaram, aceitaram senhores e fizeram guerras, ganharam o pão e o orgulho de ser gente. Chamaram esta terra de Ansiães em homenagem a um poderoso senhor godo vindo de longe há mais de mil anos, mas o génio é intemporal e o seu povo vive dele, desde que há povos.
O autor, cujo nome real é Fernando Alberto Gouveia, é natural de Belver e integra a direcção da Liga dos Amigos de Belver.
A transcrição do início do livro, feita acima, destina-se a servir de incentivo para a leitura integral da obra. A publicação é da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães. Infelizmente não se deve encontrar à venda em parte alguma da vila, mas não acredito que não esteja disponível na Biblioteca Municipal.
Nota: as fotografias são em Belver.
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