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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Rota da Maçã

A Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães e a Junta de Freguesia de Marzagão organizaram no dia 14 de Outubro uma caminhada de 10,5 km, denominada Rota da Maçã.
Com o ritmo de caminhadas iniciadas na Primavera e continuadas no Verão, é quase certo que todas as iniciativas deste género conseguem mobilizar um bom número de participantes e esta não foi exceção.
 Pensada desde alguns meses atrás para coincidir com a época da maçã, esta caminhada teve como atrativo exatamente a maçã, uma das principais produções agrícolas do concelho. Os pomares de macieiras encontram-se espalhados por todas as freguesias do planalto do concelho e, por isso, não seria difícil escolher um trajeto que levasse os participantes de encontro aos pomares.
Não percebi o cartaz e pensei que a caminhada teria início em Marzagão, por isso estava na aldeia à hora de início. Só mais tarde percebi que o início estava previsto para Carrazeda de Ansiães, para onde me desloquei o mais rápido de pude. Já não apanhei o início da caminhada, mas juntei-me ao grupo ainda em Carrazeda, perto da capela de Nossa Senhora de Fátima.
 O dia estava cinzento, algo frio e a ameaçar com chuva a qualquer momento. Estas condições pouco favoráveis não assustaram os caminheiros, que apareceram em força, ainda em maior número. A maior parte das pessoas são habitues das caminhadas, mas alguns rostos vi-os pela primeira vez (também não tenho conseguido participar em todas as caminhadas).
 O grupo desfez-se logo de início e nunca mais se juntou. Confesso que gosto mais quando o grupo se mantêm coeso, a pouca distância uns dos outros. Além de permitir conversar com muita gente, afinal já somos "companheiros" de muitos caminhos, também me proporciona oportunidades fotográficas únicas com a presença das pessoas, porque para fotografar as paisagens é muito melhor fazer o percurso sozinho, sem pressas para chegar.
Na antiga escola de 1.ºciclo de Luzelos foi servido o reforço. Nestas instalações funciona a Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Luzelos. Cheguei ao local acompanhado de um pequeno grupo de pessoas que mal parou! Segui caminho tentando não perder de vista outros participantes, o que veio a acontecer pouco depois de atravessar a estrada N214. Vi algumas pessoas junto de uma carrinha a alguns metros do caminho, mas não percebi a razão, afinal era outro local de reforço!
 A partir desse ponto segui sozinho até Marzagão! O percurso percorreu pomares de macieiras em Carrazeda, Luzelos, Arnal, Parambos e Marzagão. Já havia poucas maçãs nas árvores. Em contrapartida ainda se viam algumas uvas bem apetitosas nas parreiras.
Houve um momento que cheguei a duvidar se estaria no percurso certo, mas quando cheguei a Arnal tive a certeza que sim. Felizmente não tinha visto nem ouvido nenhuma notícia sobre o que se tem passado nesta aldeia, caso contrário não teria circulado com tanta tranquilidade.

A capela de Arnal estava aberta. Foi uma boa ideia, porque ficava no percurso e assim todos podemos visitá-la. Foi a primeira vez que entrei naqueles espaço e gostei bastante.
Continuei o caminho sozinho. Entre Arnal e Marzagão o percurso atravessou o ponto mais negro, precisamente uma área ardida! o cenário deplorável, com pinhal (e vinha) ardido. Depois vieram os pomares, grandes, que devem oferecer um belo cenário quando estão floridos ou carregados de frutos.
Um pouco mais à frente está um dos principais monumentos de Marzagão, a Ponte do Galego.

Trata-se de uma ponte muito antiga, em pedra, com altura superior ao nível da estrada, motivo pela qual tem rampas de acesso ao tabuleiro. Por baixo deste figuram dois arcos de volta perfeita. Já foi alvo de reformas no século XX.
Na aldeia ainda tive tempo para uma visita a algumas ruas e à igreja, monumento obrigatório para quem vai a Marzagão.
No bar da Comissão de Festas já se preparavam as coisas para o almoço. A julgar pelos preparativos deve ter uma boa confraternização, pelo repasto e pela companhia. Não fiquei para a refeição, tinha outros compromissos que me obrigaram a abandonar o grupo "no melhor da festa".

terça-feira, 16 de outubro de 2012

1 Dia por terras de Ansiães (8)

 Já há bastante tempo que não reservava um dia inteiro para passar a percorrer o concelho, por isso foi com bastante entusiasmo que no dia 5 cheguei a Carrazeda. Tenho sempre um destino em mente, mas os planos vão-se alterando ao sabor da Descoberta, com acontecimentos banais como o chuva, a fome, o cansaço ou a disponibilidade das pessoas que encontro.
O destino centrava-se em Beira Grande, mas a sessão fotográfica começou logo na Junta de Freguesia de Carrazeda de Ansiães, onde fiz a primeira paragem.
Rumei para Beira Grande. O dia estava frio, com algumas nuvens mas prometia boas condições para a fotografia. A aldeia é pequena e pouco povoada. Optei por continuar em direção ao Douro no intuito de investigar um pouco sobre o rumores que tinha ouvido sobre a existência de um povoado antigo, que pode ter sido a aldeia que antecedeu a atual Beira Grande. Conhecia vagamente o local e como fica situado junto da estrada não me foi difícil encontrá-lo.
Procurei as evidências de que me tinham falado: alicerces de casas, da igreja e do cemitério. A quantidade de pedras soltas é enorme e encontram-se alinhadas formando paredes algumas com mais de um metro de largura. É possível que aqui tenha existido um povoado fortificado mas o local foi utilizado para a agricultura até à atualidade, sendo difícil saber o que remonta à idade média e o que é resultado da adaptação dos terrenos para a agricultura.  Está garantido que no local existiu um povoado, o IGESPAR já o visitou várias vezes. É conhecido pelo nome de S. Pedro.
 Procurei também os vestígios da chamada Fonte Santa, a alguma distância do antigo povoado e a uma quota bastante inferior. A antiga fonte deu lugar a um poço, aberto por uma giratória e tem bastante água. A designação Fonte Santa parece ser atribuída a várias fontes, todas nas imediações. Um cruzeiro granítico na berma da estrada ajuda a sinalizar o local.
Do topo do cume onde existiu o povoado já se avista o rio Douro, mas, para poente, é visível um marco geodésico a alguma distância, que despertou a minha curiosidade.
O marco geodésico do Seixo dos Corvos eleva-se a 552 metros de altitude. Apesar de estar a uma quota inferior à de outro marco geodésico existente no termo de Beira Grande, o do Arejadouro, a quase 700 metros de altitude, a sua localização mais próxima da bacia do Douro permite avistar uma paisagem indescritível, que só ao longo do Douro se pode admirar. Mas para norte, a paisagem também é bela, embora agreste, agora totalmente ao abandono e devastada por incêndios. No fundo do vale corre o ribeiro do Síbio, ainda completamente seco, que tem origem em Seixo de Manhoses e passa junto à aldeia de Beira Grande.  As encostas rochosas são ciclópicas e atingem os 750 metros de altitude  no seguimento da encosta onde se encontra a Lavandeira.
Também muito interessante é um pico rochoso, quartezítico, que se destaca na paisagem e que dá o nome ao local, o Seixo dos Corvos.
No intuito de avistar melhor a ponte ferroviária da Ferradosa, local onde o a linha do comboio atravessa o Douro, continuei pela crista na montanha mais para jusante, até que o relevo acidentado não me deixou progredir. E foi com uma paisagem privilegiada à minha frente que me sentei numa fraga a saborear o almoço que levava na mochila que carregava às costas.
Saciado o estômago e a alma, regressei à estrada e desci ao Miradouro que integra a Rota do Douro. O local é agradável e a paisagem bucólica, mas depois do que eu avistei lá do alto, já não me mereceu tanta demora.
Dividi-me entre a vontade de continuar a descer e percorrer as quintas do Douro até chegar a Ribeirinha, ou voltar para trás, para a aldeia de Beira Grande. Como pretendia fazer um longo passeio pela aldeia, voltei para trás.
Como disse inicialmente a aldeia de Beira Grande é pouco povoada. As ruas mais antigas poucos moradores têm e há mesmo becos abandonados há décadas. As pessoas e casas deslocaram-se para junto da estrada com nome Avenida Principal, mas também para a Rua do Cemitério ou Rua da Costa. Percorri as zonas mais antigas (é uma tendência minha ir sempre para as partes mais velhas!). Não encontrei viva alma e ainda bem, porque às vezes não é fácil explicar o que que se faz a espreitar em todos os becos e vielas.
Há muitas casas em ruínas, grande parte delas térreas, com uma interessante utilização do granito. Não há casas brasonadas ou outras que se destaquem pela sua imponência.  Há algumas antigas, recuperadas com gosto e também algumas vivendas novas, onde não se pode espreitar sob penas de sermos filmados. A antiga escola primária, a primeira (porque houve uma segunda da década de 60), recuperada e adaptada para a Junta de Freguesia, é um dos edifícios mais interessantes.
 A mesma estrada (N632-3) toma diferentes nomes ao longo da aldeia: começa por ser Rua da Lameirinha, depois Rua da Portela, Rua do Geraldo e Avenida Principal! Visitei a Rua da Costa, a Rua do Cemitério e a Rua do Pereiro, nestas últimas duas estive pela primeira vez. O percurso terminou no Largo de Santo António junto à Igreja Matriz. Externamente o templo tem poucos elementos arquitetónicos de relevo, destacando-se os painéis solares no telhado e, na cornija do alçado lateral direito uma pequena figura humana a que chamam borrachona, de que falarei noutra altura. A igreja estava fechada, bem como a capela ali próxima. Reposei um pouco no coreto da Rua da Mina.
Ouvi vozes e dirigi-me para lá. Dois habitantes locais descascavam amêndoa e aproveitei para meter conversa. Ganhei algumas informações e um copo de tinto. Como a tarde já ia adiantada parti.
Para saber informações sobre a caminhada da Rota das Maçãs ainda fiz uma incursão a Marzagão. O dia tinha sido de vindima e tentavam meter todas as uvas no lagar, tarefa que não foi superada (mesmo com menos um saco delas, que me foi oferecido).
No bar ao lado já bebiam uns copos e descansavam da azáfama do dia.
A noite chegou e com ela terminou mais um dia À Descoberta por terras de Ansiães. Foi um dia sobretudo de silêncio, de comunhão com a paisagem; de austero granito e de afável receção, por parte das poucas pessoas com quem falei. É destas coisas que Ansiães é feita.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Festa de Marzagão (2010)

Andores no interior da igreja de Marzagão, na festa de Nossa Senhora do Rosário em Maio de 2010.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Igreja Matriz de Marzagão

Em Marzagão sente-se o bafo do castelo. Jaz esta jóia adormecida aos pés de sua mãe. Em preito de densa e saudosa vigília; em mandamento da memória dos cavaleiros que nos sepulcros esquecidos servem de subsolo a uma economia agrária pastoril.
Marzagão! Eis um nome que soa e que enche o peito a seus filhos emigrados, seus actuais cavaleiros de olhos postos na sua bela matriz de granito lavado, restaurada por todos os seus moradores presentes e ausentes.
Este maravilhoso templo, tão harmonioso nas suas linhas singelas, incute suave austeridade e encanto no fresco de seu tecto apainelado com pinturas de santos e de santas de cândida doçura.
Altar-mor de talha dourada, quatro altares laterais e de talha dourada também, de S. Sebastião, Nossa Senhora das Dores e do Sagrado Coração de Jesus; uma torre sineira, um órgão electrónico e um relógio estridente no seu ímpio choro das horas.
De uma só nave e sacristia, tem junto ao púlpito a seguinte inscrição: «Esta igreja tresladada para aqui da primitiva de extra-muros da vila de Ansiães no ano de 1575 e reformou-se no ano de 1765 sendo reitor o doutor António de Sousa Pinto da mesma Freguesia».
É este abade, que o foi durante mais de vinte anos, autor, de colaboração com João Pinto de Morais, abade da Carrazeda, das Memórias de Anciães.
Erectos e juntos às paredes do monumento, erguem-se, exactos e não mutilados, catorze cruzeiros de pedra inteiriça, em adro, onde a cabra não entra. Foi Marzagão da reitoria do padroado real e cabido da comenda de S. João Batista, da Ordem de Cristo, no termo de Anciães e à qual esteve anexa a antiga freguesia de Luzelos que era da apresentação do mesmo reitor de Marzagão (Dicionário Corográfico de Portugal de Américo Costa). Tem festa à Nossa Senhora do Rosário.

Extrato do livro Carrazeda de Ansiães e o Seu Termo, de José Aguilar, publicado em 1980, com edição da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz 2012

Que o calor e a luz sejam coisas que não faltem em 2012.
Um bom ano para todos os visitantes do Blogue.
Fotografia: Fogueia em Marzagão (31-12-2012)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Como sombras no muro


06 de Agosto de 1998
A mamã agora deve ter-se distraído porque não fez força nenhuma para me agarrar a mão e eu tirei-a devagarinho e já posso chegar ao pingo de cera branca que está entre as duas tábuas; mais à frente há outros bocadinhos mesmo aos pés das pessoas e um maior que eu gostava de apanhar, mas está longe, está mesmo ao pé do degrau do altar em cima do tapete vermelho comprido que vai até à porta; eu nunca tinha visto um tapete assim tão grande e as pessoas não ficam em cima dele, se calhar não se pode, vai mesmo até à porta grande da rua que está aberta e deve ser para entrar o ar porque está muito calor; a dona Maria, que é a mãe da dona Isaura, está mesmo no banco à nossa frente e se eu contar até doze sei que ela vai olhar para trás para a mamã e depois pegar no lenço que tem dentro da saia e esfregar a cara para cair o suor e depois continuar a falar baixinho que eu bem ouço mas não percebo nada, eu queria ficar ao lado da avó mas a mamã disse-me baixinho mas com força quando entrámos e a abanar-me o braço
- Ficas aqui ó meu lado e portas-te bem, oubiste?
e agora a mamã está sempre a abraçar a avó com o outro braço e olha sempre lá para a frente onde estão os jarros grandes quase ao pé do tecto com flores vermelhas rodeados de velas que não tremem, a avó não chora porque não se ouve nada e está quietinha, não é como dona Isaura que eu vejo escorrer sempre a mesma lágrima juntinho ao nariz ao pé do sinal grande; o menino que é um pouquinho maior que eu tocou o sino quando o senhor padre ergueu os braços ao alto e o som fininho que me faz lembrar um arame ainda está a tremer nos meus ouvidos; a mamã nem viu que tirei a minha mão de dentro da mão dela e se quiser posso ir até lá à frente pegar no bocado grande de cera que caiu em cima do tapete vermelho como as flores que estão à volta do altar e na roda grande de flores que nem sei como juntaram assim as flores todas e está em cima do caixão onde o avô está deitado muito quietinho porque está morto; a dona Isaura não diz caixão diz urna, eu ouvi-a dizer quando estava no banco ao pé do Fiel a fazer de conta que era o avô e ficava muito tempo sem pestanejar a olhar para o céu e
as andorinhas andavam à volta dos telhados
- Arranjou-se uma bonita urna e parece qu'é mesmo de pinho!

Excerto do romance Como Sombras No Muro, da autoria de Gilberto Pinto, editado pela Editorial Escritor Lda em 2003.

Gilberto António Pinto nasceu em Carrazeda de Ansiães, em 1964.
Actualmente reside no Porto, onde é professor no Instituto Superior de Engenharia.
A sua actividade desde há muito que se divide entre a docência, a investigação científica e a literatura.
Como Sombras no Muro é o seu primeiro romance.

 Fotografia: Lameiros perto de Marzagão.

domingo, 6 de março de 2011

À Descoberta de Marzagão (2.ªParte)

Continuação deÀ Descoberta de Marzagão (1.ªParte)
O melhor lugar para deixar o automóvel é o Largo da Igreja. O resto da aldeia deve ser explorado a pé. Tomando a Rua de S. João Baptista chega-se à capela de S. João. É uma construção sóbria, pequena, recuperada depois de muitos anos de abandono. Não tem qualquer altar, mas no tecto são visíveis alguns vestígios de pintura.
Depois de se passar na Fonte da Santinha (tem um painel de azulejo representando Nossa senhora de Fátima) e a Rua do Loureiro há uma capela com um pórtico de volta perfeita, em granito. É propriedade privada e poucos sabem o que está lá dentro.
Continuando na rua de S. João Baptista surge, à esquerda, mais um cruzeiro. Agora completamente lavado, já teve um aspecto bastante diferente. Estava decorado com a imagem de Cristo crucificado, tendo pintado à frente de uma das mãos um martelo; à frente da outra mão uma turquês; num dos lados da cruz estava pintada uma escada. Os restos da pintura desapareceram há mais de meio século, após uma limpeza.
É preciso percorrer a rua de S. João Baptista até ao final, ultrapassar as últimas casas em direcção ao Carrascal, para se encontrar a Fonte do Gricho. Completamente recuperada é, de novo, motivo de orgulho para todos os habitantes. Aqui alguns passaram momentos importantes das suas vidas, num tempo em que ir à fonte era uma das actividades mais interessantes, principalmente para as moças solteiras. Quando aparecia um rapaz com habilidade para o realejo, os pesados canecos de madeira ficavam esquecidos na borda da fonte e improvisava-se um baile, que durava até ao fim da tarde.
A fonte do Gricho é uma bonita fonte de mergulho, talhada em granito, embutida numa parede, a que se tem acesso do caminho descendo alguns degraus. Do lado direito está gravada uma data, que não se percebe completamente. Parece ser 1844A, mas não tenho a certeza.
De regresso à aldeia, foi a altura de me perder pelas ruas mais estreitas, becos e caminhos sem nome. Nome? Têm … como Rua da Portelinha, Rua do Cruzeiro, Rua das Poldras, Rua do Loureiro, Rua da Pereira, Rua da Escola, Rua da Fonte Nova, Largo do Terreiro, Cimo do Povo, Laja, etc. O problema é que não existem placas, e, mesmo os residentes, não sabem bem o nome da rua em que moram! Segundo consegui apurar, há muitos anos atrás as ruas tiveram placas com os nomes, mas foram retiradas! Se forem placas em chapa, esmaltadas, como a que está no início da rua S. João Baptista, acho que é de as repor, são muito bonitas.
Não resisti a subir ao Cimo do Povo. Deixei as casas para trás e subi ao alto de um rochedo de onde tinha uma nova perspectiva da aldeia. O núcleo mais antigo de casas está muito degradado. Há locais onde não chegam os automóveis e onde praticamente não mora ninguém. Também Marzagão sobre do mal geral, a desertificação. Os que restam procuram melhores condições, construindo à volta, em bairros novos, com mais espaço, com melhores acessos. Apesar da falta de pessoas, as condições são melhores do que alguma vez foram, com os estreitos caminhos calcetados e limpos.
Espreitando aqui e além, fui descobrindo curiosidades que me tinham passado despercebidas em visitas anteriores. Quando descia do Cimo do Povo encontrei outra fonte de mergulho, muito mais rústica e antiga do que a Fonte do Gricho. Pelo desgaste na soleira que lhe dá acesso, deve ter sido muito utilizada. Mesmo em frente da fonte, uma casa velha tem gravado na ombreira da porta as iniciais A. J. e o ano de 1760.
Há várias janelas e portas com estilo manuelino. Nada de muito elaborado, mas o suficiente para merecerem ser preservadas. Perto da rua da Pereira há duas coisas que também merecem ser referenciadas. Uma delas é o pórtico de uma casa, em granito, ricamente trabalhado. Infelizmente estava tapado por fitas para as moscas! A outra são dois ornamentos, chamados mísulas com representação de duas cabeças. Uma, dizem que representa Marzagão e a outra a sua esposa.
Ao longo de toda a aldeia há interessantes alpendres em madeira, pedras gravadas com desenhos e datas (dizem que algumas vieram do castelo), bem como alguns trabalhos em ferro forjado dignos serem fotografados.
Existe na aldeia um bonito café, mas que raramente está aberto. A taberna Trigo também já está encerrada, depois de ter servido durante dezasseis anos. A idade avançada e a falta de clientes, ditaram a morte do espaço, que pouco mudou desde então. E foi com um copo de vinho fino na taberna, aberta só para satisfazer a minha curiosidade, que terminei o meu périplo pela aldeia de Marzagão.
Ficou muita coisa por visitar: o castelo das Donas; uma necrópole; a Fonte Santa; os moinhos de água que se estendiam pela Ribeira de Linhares, etc. Ficou por fazer; um passeio pedestre entre Marzagão e o castelo; explorar o vale ao longo da ribeira da Ferradosa, quem sabe até uma caminhada entre Marzagão e Campelos. São muitas as razões para voltar a Marzagão em breve.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

À Descoberta de Marzagão (1.ªParte)

No primeiro dia de Outubro teve lugar a minha primeira visita a Marzagão, à qual se seguiram mais algumas ao longo do mês. Objectivo foi sempre o mesmo: descobrir os recantos e encantos de aldeia que só de pronunciar o nome já nos transporta para mundos imaginários de mouros e histórias misteriosas.
Os terrenos da freguesia começam quase às portas da vila de Carrazeda de Ansiães, pois o lugar de Luzelos pertence-lhe, e estendem-se ao longo da ribeira da Ferradosa quase até ao Douro. A amplitude topográfica permite a esta freguesia rural aptidão para algumas produções agrícolas de relevo. Na parte mais alta predominam os pomares de macieiras, uma das maiores riquezas do concelho; na ribeira colhe-se o vinho e o azeite. Durante todo o mês de Novembro sentiram-se nas ruas da aldeia o cheiro a mosto e o aroma a maçãs, que proporcionam trabalho na aldeia.

Um passeio a Marzagão devia começar, como é óbvio, em Marzagão. Mas não foi isso que eu fiz. A minha primeira paragem foi precisamente no Castelo de Ansiães, na Lavandeira. Além de se poder apreciar uma imensa paisagem que inclui quase toda a área de freguesia, há uma forte ligação histórica ente o castelo de Ansiães e Marzagão. O esplendor de Marzagão deve ter acontecido precisamente com o declínio da vila de Ansiães e com a mudança de alguns serviços para a aldeia, nomeadamente religiosos.
Do alto do castelo, passeando o olhar da esquerda para a direita percorre-se toda a aldeia, seguindo o traçado da sua rua principal, a rua de São João Baptista. Mesmo à distância, é possível distinguir os núcleos de casas mais antigas, o campanário da igreja, o cemitério e algumas casas mais recentes nos bairros mais periféricos. Nos montes envolventes há muito verde. Os sobreiros misturam-se com os castanheiros e os pinheiros. Também se distingue perfeitamente o alinhamento dos pomares e o verde característico das oliveiras. Entre o castelo e a aldeia, a Quinta da Aveleira, numa extensa área, permite adivinhar grandes quantidades de maçãs douradas.

Em direcção ao Douro não vale a pena olhar, pelo menos nos próximos tempos. O extenso vale foi completamente devorado pelas chamas no Verão passado e tem um aspecto desolador.
A caminho da aldeia, talvez seja interessante lançar um olhar à igreja de S. João Baptista, extra muros. S. João Baptista é precisamente o padroeiro de Marzagão.

Marzagão tem uma bonita entrada, ao longo da estrada M632-1. Depois do Bairro da Carreira Branca chega-se ao Largo da Igreja, ou Fundo do Povo, como é conhecido. A igreja Matriz, elegante, bonita, domina o largo e a nossa atenção. Esta igreja é a ponte entre Marzagão e a antiga vila de Ansiães, uma vez que para aqui foi transladada no ano de 1575. Reformulou-se em 1765 e as casas laterais, há muito tempo em obras de recuperação, em 1756. É quase obrigatório dar uma volta no adro da igreja, agora muito mais vistosa depois de cortados dois enormes ciprestes que no passado estiveram à sua frente.
Em volta da igreja há catorze grandes cruzeiros em granito. Os pináculos, no telhado, são elegantes, bonitos, decorados com motivos florais. No frontispício destaca-se uma bela janela e, por baixo dela uma cruz, a da Ordem de Cristo. Marzagão foi da reitoria do padroado real e cabido da comenda de S. João Baptista, da Ordem de Cristo.

Com um pouco de sorte, talvez se possa entrar no interior da igreja. É um monumento digno de veneração e admiração. Todo o tecto está coberto de painéis representando santos, santas e cenas da vida de Cristo (perto de 150 quadros). O altar-mor em talha dourada é muito bonito, tal como os quatro altares laterais. Em vários locais é possível encontrar pedaços da história. Numa lápide pode ler-se: “Esta igreja transladouse aqui da primitiva extra muros da vila de Anciaens no ano de 1575: e reformousse no ano de 1765: sendo reitor o Doutor Antonio de Souza Pinto da M.a Freg.a”.
Um dos dias grandes desta igreja acontece no primeiro Domingo de Maio, aquando das festas em honra de Nossa Senhora do Rosário. Além da missa solene com pregador convidado, realiza-se uma majestosa procissão, com bandeiras, estandartes e os andores de S. João Baptista e Nossa Senhora do Rosário, entre outros.

A paragem seguinte é noutro monumento de relevo da aldeia: a Ponte do Galego, também conhecida como Ponte Romana. Situada fora do povoado, junto à estrada que segue para Linhares, apresenta dois arcos de volta perfeita e um tabuleiro plano. Tudo em granito. Estabelecia a ligação entre a vila de Ansiães e Arnal, com ligações ao Douro. Na melhor das hipóteses, as fundações remontam à Idade Média.

No regresso podem ser apreciados: a antiga escola primária, há muito tempo encerrada; um nicho com S. João Baptista, onde se realiza uma pequena festa com cascata no dia de S. João, e um bonito cruzeiro (que ainda tem restos metálicos da existência do mealheiro). Tal como nas alminhas, nestes cruzeiros recolhiam-se esmolas com que se celebravam missas, para sufrágio das almas do purgatório.

Continua:
À Descoberta de Marzagão (2.ªParte)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

1 dia por terras de Ansiães (02)

A oportunidade de passar mais um dia a passear pelo concelho é sempre aproveitada com grande entusiasmo.
O roteiro escolhido para o dia 15 de Outubro não deferiu muito do que segui uma semana antes. mas, mesmo quando se visita o mesmo lugar, há sempre novas coisas que nos chamam à atenção.
O primeiro ponto da viagem foi ao castelo de Ansiães. Não propriamente para visitar o castelo, que bem o merece, mas sim para tentar conseguir uma fotografia panorâmica da aldeia de Marzagão. A posição é boa, mas os resultados não me agradaram. O facto de colocar a objectiva a trabalhar no limite das suas capacidades e talvez devido à manhã algo cinzenta, desisti rapidamente.
A segunda abordagem à panorâmica da aldeia foi do lugar exactamente oposto. Dirigi-me para Marzagão, atravessei a aldeia e subi, a pé, por um caminho que conduz a um outeiro a poente da aldeia, quase junto do campo de futebol de onze. A partir deste ponto a dificuldade esteve em conseguir enquadrar a maior parte das casas, uma vez que algumas ficam completamente tapadas por outras que estão à sua frente. Mas, mesmo assim, o resultado agradou-me mais e andei pelo alto do morro admirando a paisagem. Até Carrazeda de Ansiães se avistava bastante bem!
Pelo caminho ainda tive tempo para saborear as primeiras castanhas e procurar alguns cogumelos à sombra dos castanheiros. Não tive muita sorte com os cocos mas algumas vaquinhas proporcionaram-me algumas fotografias. As vaquinhas (ou línguas de vaca) são cogumelos bastante saborosos que me habituei a comer desde criança. O seu nome científico é Fistulina hepática.
Já de novo na aldeia percorri as mais estritas ruas e ruelas. O que deve ter sido o núcleo mais antigo da aldeia está praticamente deserto e em ruínas. Não há placas a identificar as ruas, por isso tive alguma dificuldade em me situar.
Aproveitei para colocar a máquina fotografia em preto e branco e tentar uma abordagem mais artística dos locais. Gostava de ter encontrado alguém com quem conversar, mas isso não aconteceu.
No largo do Fundo do Povo dirigi-me mais uma vez à igreja, mas tal como no dia da primeira visita, esta encontrava-se encerrada.
Já depois do meio dia foi a altura de rumar em direcção a Zedes para um almoço em família. O tempo passado em Zedes foi pouco, mas ainda deu para fazer uma visita ao rancho de apanha de maçã. Tal como em Marzagão, em Zedes (e muitas outras freguesias do concelho) a produção de maçã é uma das mais importantes actividades económicas. É também uma actividade que dá alguns trabalho, mesmo que temporário.
Já pelo Barreiro, não resisti a mais um passeio por um souto. A senhora Nilza e o senhor Adelinho presentearam-me com todas as castanhas que já tinham apanhado até ao momento! São gestos como este que nos fazem sentir em casa.
Na continuidade do meu passeio pelo souto fui ainda presentiado com um conjunto de rocos e meia dúzia de vaquinhas nos troncos dos castanheiros. Um pouco mais acima, no picoto, o martelo rasgava o caminho para o IC5 que vai passar bastante próximo.
A paragem seguinte foi na Biblioteca Municipal, em Carrazeda de Ansiães. Desta vez nem cheguei a entrar. Pretendia unicamente ter acesso ao livro “Memórias de Ansiães”(MORAIS, João Pinto de e MAGALHÃES, António de Sousa Pinto de.), como fui informado que não existe na biblioteca, nem sequer entrei e decidi aproveitar o tempo, seguindo viagem.
A paragem seguinte foi no Amedo. A sorte esteve do meu lado e encontrei algumas pessoas que não só conversaram comigo sobre a aldeia assim como me proporcionaram uma visita à igreja matriz e à capela de S. Martinho. Apenas pretendia ocupar o resto da tarde, mas fiz um interessante passeio pelas ruas da aldeia e também fiz alguns interessantes registos fotográficos.
Ficou a promessa de uma visita mais demorada à aldeia.