
Depois de lançado o desafio para conhecer outros pontos de interesse, em
Belver, surgiu hoje (dia 8) a oportunidade de um passeio pelas ruas da aldeia.
Quando se chega a
Belver, tem-se a ideia de ter entrado num jardim! Ao longo da
Rua Marechal Gomes da Costa, há muito jardim com rosas de cores vivas desafiando a objectiva de qualquer turista atrevido. O melhor local para começar a visita é mesmo no
Largo da Praça ou no
Largo da Junta de Freguesia, próximos, situados no centro da aldeia, são bons locais para estacionar o carro.
Belver é uma aldeia possivelmente com origem no século XII, havendo vestígios que atestam a sua antiguidade, espalhados por todo o aglomerado de casas.

Quando os velhinhos mais afoitos me perguntam porque ando a fotografar as casas velhas, costumo responder: – Ainda tenho muito tempo para fotografar as novas. Infelizmente o passado vai-se apagando, um pouco por todo o lado. São as casas abandonadas que caiem; são as reconstruções à moda do momento, sem gosto, descaracterizando tudo; é muitas vezes o próprio poder local que não está sensibilizado para a preservação de um património que constitui um vector importante de uma identidade, com as juntas de freguesia a limparem, deitarem abaixo, entulharem querendo dar uma ideia de modernismo.

Embora em
Belver haja muitas casas em ruínas, também se nota uma preocupação pela recuperação, mantendo a tipicidade e o enquadramento. Era bom que essas pessoas recebessem apoios, por tomarem essa opção.

A par da história, há também em
Belver a curiosidade que lhe parece ter dado o nome -
Belo Ver - , um local de onde se têm vistas bonitas. Embora a minha visita se destinasse apenas à aldeia, nunca me consigo abstrair da paisagem circundante, não havendo, no caso de
Belver, nenhum cabeço de onde se tenha uma vista geral de toda a aldeia.
Depois de estacionado o carro, o melhor é seguir explorando ruas e ruelas, becos e travessas. Eu segui para a o
Beco das Eiras, e da lá para a
Rua da Atafona. No
Largo do Vale respira-se calma. Uma enorme tília espalha sombra, convidando a uma pausa. Apesar de o céu se apresentar com algumas nuvens, quando as trespassa, magoa na pele. Em redor deste largo há bonitas casas, antigas, cuidadas com alpendres resguardados por gradeamentos de ferro forjado,
convidando à fotografia.

Segui pela
Rua do Vale, atravessei a rua principal e continuei pela
Rua da Escola. Ainda há pouco tempo por aqui passei, numa prova de BTT, mas a minha relação com esta rua remonta à minha infância.

Segui pela
Rua do Vale até à antiga escola primária. Subindo as escadas, é um bom local para apreciar a
paisagem circundante. De volta ao centro, reparei numa
pequena pedra embutida numa parede recente. Trata-se com certeza de uma pedra de alguma construção mais antiga.
De volta à rua principal, procurei captar toda a
cor que pintava a velha aldeia de juventude: rosa, vermelho, verde, amarelo… Chegado ao ponto de partida, é uma boa oportunidade para admirar a
fonte, datada de 1924, perto do edifício da
Junta de Freguesia. A curiosidade levou-me ao
Beco da Atafona. Mais uma zona envelhecida, com típicas casas construídas com granito miúdo. Um olhar por sobre as paredes
em direcção ao poente permite ver os típicos quintais, com hortas viçosas, cheias de couves, alfaces, cebolo, batatas, etc., mas também com flores juntando a necessidade ao prazer, nestes recantos cultivados com amor.
Voltei à rua principal com intenção de a percorrer até à igreja. Encontrei uma casa com aspecto muito cuidado, com a data de 1668, um bonito relógio de sol, a par de outros artefactos trabalhados em granito.

Em passos largos cheguei à
capela do
Santo Cristo. Não é por acaso que este Blog se chama
À Descoberta, adivinhava um interessante momento. A capela não é muito grande e não é muito normal ter uma porta à frente e outra nas traseiras. Pode mesmo dizer-se que tem duas frentes, embora não lhes tenha sido dada a mesma importância. Só a fachada direccionada para a estrada tem uma pequena sineta e duas pequenas janelas laterais à porta.

Claro que só reparei nestes pormenores, depois de alertado para o curioso altar que me esperava no interior.
Mal entrei o meu olhar dirigiu-se para a imagem de Cristo pregado na cruz. Não pude deixar de me lembrar do
cruzeiro do Senhor dos Aflitos, em
Codeçais, onde já estive hoje. Este, da capela, é mais rústico, certamente mais antigo, mas também está suportado numa coluna de rocha pintada com vários tons de roxo, azul e laranja. A toda a volta do crucifixo, foi construído o altar, parecendo o cruzeiro fazer parte do mesmo. A maior surpresa veio quando verifiquei que o altar não estava encostado à parede, mas sensivelmente a meio da capela. Contornei-o e encontrei outro altar por detrás do primeiro; com a mesma coluna, com a mesma cruz, mas com
Nossa Senhora com o Menino ao colo em vez do Cristo crucificado. Também confirmei a existência da “Pedra-da-Morte”, que se pensa tenha sido o suporte do primitivo cruzeiro e que tem uma figura antropomorfa que se pensa ser o diabo. Para diabo, é bastante parecido com os humanos!

Por fim, segui para a
igreja matriz, que pode ser mais antiga, mas que foi muito intervencionada no Séc.XVIII.

O seu interior é muito bonito com toda a talha dourada em fundo branco. Também chama à atenção o tecto azul com pinturas muito bem conservadas representado os quatro evangelistas, a
Senhora das Dores ao centro, outros santos, não sei se os doze apóstolos. Do lado direito do altar, lá estava a imagem de
Nossa Senhora das Neves,
padroeira da freguesia.
De volta ao carro, fiz um pequeno desvio na
Rua da Figueira, para visitar a
Fonte Romana. Na verdade trata-se de uma fonte de mergulho, medieval, que já está bastante danificada. Este local merecia mais atenção. Mesmo a fonte não sendo romana, é um património importante na freguesia, que merece ser preservado.

Foi uma passeio muito interessante, este que fiz em
Belver. Comigo tinha o meu filho mais novo, com 8 anos, que também se entregou, com espírito de descoberta. Não descrevi todos os pormenores, nem publiquei todas as fotografias. Fica a porta aberta para outras
viagens a
Belver por exemplo, à descoberta da fraga das ferraduras...