domingo, 7 de outubro de 2012

À Descoberta de Belver (3/3)

Continuação de : À Descoberta de Belver 2/3
A capela foi construída aproveitando a existência de um cruzeiro em pedra com duas imagens, nas costas uma da outra, Santo Cristo da Agonia e Nª Sª do Amparo. O altar, ou melhor os altares, de costas um para o outro foram construídos mantendo as imagens em pedra no centro da talha em madeira, estando situados, mais ou menos, no meio da capela. Como tem duas portas de entrada e dois altares, pode dizer-se que é uma capela dupla, onde dois padres podem celebrar ao mesmo tempo, sem se verem. O fuste do cruzeiro e as imagens estão completamente pintados, não se notando, à primeira vista, a separação entre a pedra e a talha dos altares. O cruzeiro é muito mais antigo de que a capela, não se sabendo ao certo a sua origem. Ainda há pouco tempo vi um semelhante em Alcanices.
Esta capela foi atingida por um relâmpago em maio de 2011. O poder destrutivo começou na cruz cimeira, seguiu pela instalação elétrica, espalhou-se pelos altares fazendo saltar faíscas por todos os lados. As toalhas brancas dos ficaram com buracos causados pelo fogo. Foi recuperada, sendo mínimos os vestígios desse acidente. A cruz foi substituída, porque se partiu quando caiu ao chão. O interior foi restaurado e pintado. Também nas casas vizinhas o susto foi enorme causando estragos nos eletrodomésticos.
A capela é usada é usada como casa mortuária. A população é pouca e o espaço suficiente e aconchegado.
Há mais uma curiosidade nesta capela – a Pedra da Morte. O nome é sugestivo, mas a sua origem não é muito clara. A pedra tem quase um metro de altura e uma forma que se assemelha à base de um pilar. Seria a base do cruzeiro? É pouco provável. Apresenta em relevo uma figura humana, o próprio diabo, dizem. Há quem distinga nela os chifres e o rabo, que parte de um lado, e contorna toda a pedra. O que é garantido é que ela se encontrava no exterior da capela. Apenas foi colocada no interior com receio de que fosse roubada. Também é verdade que, em tempos idos, os rapazes mediam forças, uns com os outros, transportando a pedra às contas em voltas à capela.
Está referenciada também uma ermida, dedicada a S. Martinho, a um quarto de légua da igreja, mas desconheço a sua localização
A igreja matriz está próxima. Este templo deve ter sido construído no séc. XVI e reformulado mais tarde. Cristiano Morais diz que foi ampliada em 1775. Exteriormente é de linhas simples, constituída por uma planta longitudinal, composta por nave única e capela-mor. Apresenta uma torre sineira na fachada, dupla e central. Os pináculos, quer na igreja, quer na sacristia lateral, são singelos. No interior o retábulo que cobre o arco triunfal de volta perfeita e que integra os altares colaterais maneiristas, não é contemporâneo do da capela-mor. Este último foi restaurando há menos tempo, mas um pouco de atenção nos motivos evidenciam diferenças, para além do facto de um estar restaurado e do outro necessitar de restauro. Gosto mais do rendilhado do retábulo da nave.
No teto estão pintados os quatro evangelistas, os doze apóstolos e Nª Sª das Dores.
 Desde a última vez que estive na igreja houve algumas alterações. O ambão mudou de lado. A imagem de Nª Sª das Neves também mudou de posição. Em 2008 estava do lado do Evangelho e atualmente encontra-se do lado da Epístola. Tal mudança parece dever-se à existência de uma outra imagem, a de Nossa Senhora de Fátima, do lado do Evangelho. Qualquer pessoa que entre na igreja vai procurar a imagem do padroeiro/a na lugar em que se encontra hoje S. Pedro! Já em 1758 S. Pedro, com uma irmandade na paróquia e N.ª Sª das Neves, partilhavam o altar da capela-mor, mas a imagem da virgem com o Memino seria a que se encontra hoje na nave principal da igreja, que é muito vistosa. Esta imagem estava em 2008 num altar lateral, que foi entretanto desmontado e removido!
 Há mais imagens na igreja, mas a de Stª Ana e a de Nª Sª da Conceição merecem algum destaque.
Abandonado o adro da igreja e caminhando mais algumas centenas de metros em direção a Fontelonga, encontra-se o ribeiro do Moinho. Nele existem tanques para lavar roupa, mesmo no leito do ribeiro, junto ao antigo moinho. Deixa-se a estrada, à esquerda e caminha-se um pouco ao longo do ribeiro até atingir o moinho. Está prevista a sua recuperação por parte da Liga dos Amigos de Belver, mas não está minimamente preparado para ser visitado. Andei em volta e não consegui descobrir a porta! Com pena minha, abandonei o local.
 De novo na estrada, se o tempo disponível for suficiente e a vontade de caminhar for muita, pode seguir-se em direção ao bairro das Carvalhas e daí para a fraga das ferraduras. Este sítio de arte rupestre fica a aproximadamente 2 km de distância. Uma vez que se situa a poucos metros de distância da estrada que segue para a Piscina Municipal e barragem da Fontelonga é possível aceder-lhe facilmente em automóvel.
De regresso ao largo da Praça, falta uma última paragem, na fonte da Romana. Fica na canelha da Figueira, a curta distância da capela do Santo Cristo. Trata-se de uma fonte de mergulho, parcialmente abatida, mas que ainda têm água que é usada para regar algumas hortas em volta. Seria muito bom que se procedesse à preservação desta estrutura, bem bonita e que deve trazer boas recordações às pessoas mais idosas.
Termina assim o passeio À Descoberta de Belver. A aldeia apresenta um bom conjunto de pontos de interesse para ser visitada, com casas tradicionais, fontes e algum património religioso. O principal problema de Belver, é, sem dúvida, a falta de gente que utilize os espaços, que cuide deles, para que seja mais agradável viver neles e visita-los.
O encontro da Liga dos Amigos de Belver está marcado para agosto. Estive presente 2008 e posso garantir que os belverenses são exemplares no bem receber (bem à maneira transmontana). Até lá…

Artigo publicado do jornal O Pombal, em Julho de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

À Descoberta de Belver (2/3)

Continuação de: À Descoberta de Belver (1/3)
A rua do Vale tem continuação pela rua da Escola. Nela não se ouvem os risos das crianças e algumas casas estão desabitadas. É direita e larga, contrastando com todas as das zonas mais antigas da aldeia. Liga a caminhos vicinais que se estendem até Carrazeda de Ansiães.
Na antiga Escola Primária funciona agora a sede da Liga dos Amigos de Belver. Constituída em 2006 e com muitos dos associados fora da aldeia, a principal atividade da Liga tem sido a realização de um convívio nos primeiros dias de agosto. No entanto, os seus objetivos são mais ambiciosos e, em parte, têm sido conseguidos: melhoria das instalações e o seu aproveitamento mais frequente; recuperação da fonte de mergulho da canelha da Figueira e a aquisição e recuperação do moinho existente no ribeiro do Moinho.
A falta de uso do recinto da escola é evidente, necessitando urgentemente de limpeza.
O “recreio” é dos poucos pontos da aldeia de onde se avista alguma paisagem. Não é difícil imaginar os campos cheios de vida. Aliás, isso ainda se verifica nas pequenas hortas encostadas às casas, onde se regam as alfaces, cebolas, tomateiros e pimenteiros, rodeados de flores, que salpicam de cor todas as hortas transmontanas.
Na veiga, mais latifundiária, só sobraram algumas leiras de batatas, já com flor, outras de milho, culturas bem representativas do potencial agrícola das terras.
Está na altura de segar a erva dos lameiros. As gramíneas floriram e os finos caules dobram-se com o peso das espigas. Os troques, com a sua cor garrida, crescem hirtos nas paredes ao longo dos caminhos com arranjos de verde de cenoura brava. As giestas negrais, que aqui crescem como carvalhos, ostentam o que restou do seu manto amarelo, recolhido por calejadas mãos para as passadeiras do Dia do Corpo de Deus.
Ao longo das margens da ribeira do Moinho, que se estende até próximo da Carrazeda, e continuando pela Veiga, há grandes retalhos de terrenos férteis, outrora sustento de famílias numerosas, estão reduzidos à alimentação do gado, também ele cada vez menos abundante.
 Regressemos às ruas. Caminhemos até ao largo da sede da Junta de Freguesia. O edifício é pequeno, recente e não desperta muito a atenção. O elemento de maior interesse neste largo é, sem dúvida, uma curiosa fonte datada de 1924. Esta fonte é única no concelho, constituída por um depósito, um tanque para os animais beberem, uma torneira para recolha de água e um pequeno tanque para lavar a roupa. Estas últimas três valências estão interligadas por um sulco do em granito por onde a água circula por gravidade até se depositar do tanque de lavagem da roupa. Muito bem situada, e ainda com plena utilização, esta fonte é um dos elementos do património construídos com mais interesse em Belver.
Chegámos ao ponto de partida. A aldeia é dividida pela Estrada Municipal 627 que no interior da povoação recebe o nome de rua Marechal Gomes da Costa. É por ela que se tem acesso a Belver e se pode sair em direção a Fontelonga. As bonitas vivendas que existem na aldeia foram construídas à entrada, de um e do outro lado da estrada. É também à entrada da aldeia que se encontra um nicho muito recente, elegante, em granito, inaugurado em 2009. A imagem é de Nª Sª das Neves.
No interior da aldeia ladeiam a estrada casas mais antigas, algumas com traça interessante. As curiosidades vão surgindo, como duas caras esculpidas, perto do largo da Junta, um relógio de sol sobre um muro, depois do largo da Praça, algumas pedras trabalhadas e datas gravadas nas vigas e fachadas das casas. Sendo possível que existam habitações desde o séc. XII, a data mais antiga que encontrei gravada foi 1668, sendo a maior parte do séc. XX. Num beco está gravado MDCCLXV, em letras enormes, na viga de uma porta.
Um pouco mais à frente surge a capela de Santo Cristo, visita obrigatória na Descoberta desta aldeia.
 Nas Memórias Paroquiais de 1758 são citadas como existentes em Belver 4 capelas: uma no cemitério, a capela da Visitação de Santa Isabel, particular, tendo como administrador António de Morais, de Zedes; a segunda na meio do povo, de Nª Sª do Carmo, particular, sendo administrador António José Monteiro; a terceira no fim do povo, indo para Carrazeda, a de S. Pedro, também particular, administrada por António Gonçalves. A quarta era precisamente a capela de Santo Cristo.
Tem mais esta freguezia outra Capella que há poucos anos que se principiou que ainda nom esta benta”. A julgar pela data inscrita por debaixo do parapeito de uma das janelas terá sido concluída em 1765. Contam as pessoas que foi mandada construir por um emigrante no Brasil, que, sendo colhido por uma tempestade numa das suas viagens, prometeu construir esta capela por quanto chegasse bem à sua terra natal. Tendo sobrevivido, cumpriu a promessa.
As Memórias Paroquiais contam uma história um pouco diferente. A capela foi construída com a contribuição de doentes que se curaram, “como se verefica dos mylagres que nella estam” (deveria estar a referir-se ao que conhecemos hoje por ex-votos, e que não existem na capela) e com dádivas dos fiéis.

Continua em: À Descoberta de Belver (3/3)

domingo, 23 de setembro de 2012

À Descoberta de Belver (1/3)

 Belver é uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães que dista aproximadamente dois quilómetros da sede. Trata-se de um núcleo populacional relativamente pequeno, mas, como a freguesia agrega Mogo de Ansiães e o bairro do Reboredo, que muitos julgam pertencer a Carrazeda, tem mais de 300 habitantes, número que muitas outras freguesias não atingem.
A origem do nome Belver é frequentemente atribuída à derivação de “Belo ver” ou “Belo viver”. Esta explicação é também dada a respeito de outro Belver, com um bonito e altaneiro castelo, no concelho de Gavião. Não me parece que haja grande paralelismo, uma vez que o “nosso” Belver está implementado numa zona planáltica, na terra fria, entre os 700 e os 800 metros de altitude, mas sem que daqui se avistem largos horizontes, exceção feita ao vale da Cabreira, para os lados de Mogo de Ansiães.
Mesmo a esta altitude há pontos mais elevados que se lhe sobrepõem. Daqui se avista o pinocro, vértice geodésico de primeira classe situado em Fontelonga, o cabeço de Nª Sª da Graça, em Samorinha e o antigo castelo de Ansiães, a que esta freguesia esteve ligada em tempos remotos.
O meu último grande passeio a Belver aconteceu em junho de 2008. Quando, recentemente, voltei à aldeia, algo tinha mudado. Não foram as pessoas, nem as casas, nem a paisagem. O que mudou foi a imagem mental que eu construí da aldeia depois de ler o romance “O violino do meu pai – Partir ou ficar em Trás-os-Montes” da autoria de Campos Gouveia, nascido em Belver em 1947.
Pode ter sido uma dedução errada minha, nunca esclarecida junto do autor, mas a aldeia onde se desenrola parte da história, Belavista, é justamente a aldeia de Belver. Não resisto a transcrever algumas palavras.
“A aldeia era animada e havia muita mocidade, especialmente raparigas, que os rapazes estavam a ir em bandos para o Brasil, no sonho de fortuna seguramente rápida, a abanar a árvore das patacas; composta de um aglomerado velho de casas de pedra nua, atravessado a meio por um caminho largo que conduzia a Montelongo, capela de dois altares e igreja matriz da Senhora das Neves com torre sineira e relógio accionado por dois pesos de granito, três fontes de mergulho: a da gricha, a do valtalho e a da canelha. Era nesta última que Joaquina recolhia os canecos de água, não só por ser a mais próxima mas também por ser a mais limpa: nas outras duas os animais bebiam com frequência da mesma água das pessoas. Esta tinha uma abóbada de pedra colocada de tal forma que os animais tinham dificuldade em chegar à água e dois degraus laterais que serviam de banco, num plano inferior ao do caminho, onde as pessoas podiam conversar. Além disso, a canelha não tinha muito movimento, pois só de manhã e à noite os lavradores passavam por ali para levar ou trazer os animais dos lameiros da pontesinha, e por isso os namorados a preferiam.”
O romance faz uma descrição das habitações, das famílias e do modo de vida na aldeia de “Belavista”. Partamos, então, à descoberta da aldeia que “na uniformidade da pedra escura e da telha vã… se confundia com a paisagem granítica, se dela se não destacassem algumas construções recentes de brasileiros.
 Um bom ponto de partida para o passeio é o largo da Praça. É relativamente amplo e está rodeado de casas em granito. Encostado a uma delas está um fontanário, também em pedra, mas já sem gota de água. Algumas foram recuperadas, e com bom gosto, outras mostram as marcas do passar dos anos e da ausência de vida. Marca do tempo é (também) o nome de um beco próximo – Atafona. As atafonas eram uma espécies de moinhos, movidos a tração animal. Um destes terá possivelmente existido neste beco.
Da Praça partem vários caminhos em distintas direções. Sendo necessário escolher, uma hipótese é seguir em direção ao Vale, para norte. O Vale foi antigamente a Gricha. A aldeia era atravessada por uma ribeira onde as mulheres lavavam a roupa. Havia uma pequena ponte de pedra que permitia atravessar a ribeira e, também na Gricha, uma fonte, possivelmente de mergulho, onde bebiam os animais e de onde se extraía água para rega. Hoje o cenário é bem diferente. O leito da ribeira é mais caminho do que outra coisa. A pouca água que por aqui passa é entubada, mal se dando por ela. Disseram-me que a fonte ainda existe, tapada, mas não a encontrei.
O largo do Vale é um dos recantos mais românticos da ladeia. Há uma enorme tília e muitos bancos espalhados, para um momento de sossego. Encostados às casas pendem fartos ramos de rosas vermelhas, ou de cores mais lavadas. Algumas casas destacam-se pela dimensão, pela utilização de granito trabalhado, pelas existência de escadas e patins. Umas mais robustas, outras mais humildes e em ruínas. Na rua, na travessa e no beco, todos do Vale(!), há dos dois tipos. Foi na travessa do Vale que encontrei a primeira surpresa da tarde - uma janela manuelina. É muito simples, parecida com outras que existem em Selores, mas, mesmo assim, digna de referência porque são poucos os exemplares que existem no concelho.

Continua:  À Descoberta de Belver (2/3)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

À Descoberta de Lavandeira (3/3)

Antiga Escola Primária de Lavandeira
Continuação de: À Descoberta de Lavandeira (2/3) 
A escola de 1.ºCiclo está fechada. Longe vão os tempos em que a D. Margarida era a professora da aldeia! Natural de Selores, casou em Lavandeira e tinha a seu cargo uma catrefada de crianças. Chegou a haver mais de 60 crianças a frequentar a escola que funcionou ao lado da Casa dos Milagres.
Altar da capela-mor com Dívino Rei Salvador
Da escola pode fazer-se um percurso pela rua do Outão, rua do Jardim, rua Principal e rua do Adro, regressando à igreja.  Ao longo de todas estas ruas há pequenos espaços de autênticos jardins. Algumas casas foram recuperadas e outras esperam por melhores dias, é o caso de um antigo lagar de azeite que a Junta de Freguesia gostaria de restaurar, abrindo ali um espaço com múltiplas aplicações. Infelizmente os apoios não abundam.
Tampa de um sarcófago. Agora está junta à sede da Junta de Freguesia.
Em 2011 havia algumas tampas de sarcófagos junto ao cemitério, mas foram retiradas do local. O mesmo aconteceu a dois enormes cedros que se encontravam à frente da igreja matriz que foram cortados.
Chegados de novo ao largo e depois de percorrer grande parte da aldeia, ficou para o fim o património de maior destaque, a igreja de S. Salvador ou de Santa Eufémia. Esta designação leva a refletir na história do local e no porquê de não estar definida uma designação consensual.
Nicho no frontispício da igreja
Lavandeira foi  até ao Séc. XVII um mero lugar da freguesia de Ansiães, paróquia de S. Salvador. Com a decadência do castelo, Lavandeira foi crescendo. Os batizados continuaram a fazer-se na velha igreja românica até 1803, altura em que a paróquia se transferiu para a capela de Santa Eufémia, em Lavandeira. Esta mudança ditou a morte gradual da igreja de S. Salvador, intramuros e ao desenvolvimento da paróquia da Lavandeira, que conduziu à ampliação da pequena capela românica que deveria existir. O culto a Santa Eufémia já existia desde o séc. XVI, fomentado pela existência de algumas relíquias que mobilizavam romeiros, mesmo lugares longínquos.
Imagem de Santa Eufémia no andor, pronto para a grande festa
Por cima da porta lateral da igreja há um brasão em granito que deve ter sido arrancado da igreja de S. Salvador, no castelo, para depois ser ali aplicado, já numa fase posterior à construção da igreja. No alçado oposto há uma representação, penso que de um anjo, a que dão o nome de Lavandeira, personificando a aldeia.
O cabido exterior, com as suas belas colunas em granito começou a ser construído em 1773. No frontispício da igreja há um bonito nicho com motivos florais onde deveria estar a imagem de Santa Eufémia, mas, curiosamente, o espaço está preenchido com uma imagem de S. António.
Santa Eufémia ladeada pelas suas irmãs
Dada a importância do culto a Santa Eufémia a igreja manteve sempre a dupla designação, de Santa Eufémia e de S. Salvador, que recebeu por transferência da paróquia histórica do castelo de Ansiães.
Entrar na igreja é um privilégio. A beleza do seu interior pesou na escolha desta capela para rodar algumas cenas de da telenovela que passou na TVI, chamada “A Outra”.
Cabido exterior da igreja
Os elementos que se destacam em primeiro lugar são os altares com retábulo dourado apresentando parras, uvas e “putti” (crianças nuas, quase sempre do sexo masculino, frequentemente com asas).  No centro do altar da capela-mor está uma bonita imagem do Divino S. Salvador, o mesmo Deus Criador que está representado num fresco à entrada da igreja, na parede do lado direito, com o pé sobre uma esfera onde estão representados Adão e Eva.
Representação da "Lavandeira"
A imagem de Santa Eufémia ocupa uma posição lateral, num altar próprio e distinto dos restantes. Acompanham a imagem dois enormes leões, elemento identificativo de iconografia de Santa Eufémia que morreu mártir em Calcedónia, atual Croácia. Curiosamente nenhum dos ex-votos existentes na Casa dos Milagres apresenta este elemento. As imagens mais antigas da igreja representam Santa Eufémia (de Braga/Orense). Para adensar a dúvida Santa Eufémia está representada num dos caixotões do teto da igreja, em companhia das suas 8 irmãs, sendo Santa Marinha e Santa Quitéria as mais conhecidas. Ora, esta representação é da Santa Eufémia “portuguesa/espanhola” e não a da Calcedónia.
Árvore de Jessé, no teto da igreja.
 Há outra representação que valoriza esta igreja e que também se encontra nos caixotões do teto, mas da capela-mor: trata-se da representação da Árvore de Jessé, que representa a genealogia de Jesus. São muitos os motivos de interesse que existem na igreja, e também na sacristia, com imagens antigas e com a sua pintura rococó.
Pantocrator do Juízo Final na capela de S. Salvador, no castelo de Ansiães
Como a prosa já vai extensa, fica por fazer uma caminhada e uma visita ao castelo de Ansiães, onde a história está em cada pedra. Fica por contar a mistura do sagrado e do profano da festa de Santa Eufémia a 15 e 16 de setembro. Mas há coisas de não podem ser contadas, têm que ser vividas. Por isso, deixo o convite para nos encontrarmos na festa de Santa Eufémia, na Lavandeira, em Setembro próximo.
Aníbal Gonçalves
Artigo publicado no jornal O Pombal, em Março de 2012.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

À Descoberta de Lavandeira (2/3)

Nicho de S. Frutuoso
Continuação de: À Descoberta de Lavandeira (1/3)
Partindo pela rua do Arenal em direção a norte podem ver-se no início da Rua de S. Frutuoso, na padieira da porta de duas casas, alguma inscrições enigmáticas. Numa, a par de outros símbolos, pode ler-se 1749. Depois do Café Reixelo, único espaço comercial que ainda subsiste na aldeia, fica o Largo de S. Frutuoso. Em lugar de destaque encontra-se um nicho, em granito polido, com porta de alumínio e vidro, com a imagem do referido santo.
Pormenor de uma janela em Lavandeira
Dos lados há jardim, uma fonte, bancos e um mealheiro par arrecadar alguma possível esmola. Referi no início que não há capelas no interior da aldeia, mas a ter existido outra além da Santa Eufémia, terá sido a de S. Frutuoso, neste local. Este facto é relatado pelos habitantes da aldeia e, no jardim de uma casa próxima, é visível uma pedra trabalhada que pode ter sido um nicho ou ter feito parte do frontispício de uma capela.
A poucos metros daí é possível ver uma janela bastante interessante, numa casa praticamente em ruínas. Tem duas mísulas trabalhadas, desiguais, e apresenta em cada ombreira um elemento esculpido no granito. De um lado um cálice, do outro o que parece ser uma face humana. A aresta cortada a toda a volta da janela dá-lhe uma elegância de grande contraste com a rusticidade da construção.
Vista parcial da aldeia de Lavandeira
A paragem seguinte é na fonte dos Nabais. Trata-se de uma fonte de mergulho, escavada no granito, que ocupa uma posição bastante inferior ao nível do solo. O acesso é feito por umas escadas, depois de ultrapassada a porta em ferro forjado de que é também feita a proteção. Ao que me foi dito, a fonte foi outrora bem diferente. Encontrava-se ao nível do solo e tinha lajes de granito onde as mulheres lavavam a roupa. Quando o caminho foi composto, penso que a antiga fonte foi destruída, abrindo-se uma nova, escavando numa direção diferente.
Largo do Campo da Bola
O passeio continua em até ao largo do Campo da Bola, antiga Lameira da Choca, por um acesso recente. O caminho está calcetado e permite ver a aldeia de uma quota superior, com uma visão alargada, que se estende a Beira Grande e ao cume da Senhora da Costa, na freguesia de Seixo de Ansiães.
Do campo da bola já não há sinais. Ainda joguei aqui algumas vezes. O espaço ganhou nova utilidade. No topo norte situa-se a sede da Junta de Freguesia, um edifício vistoso e recente.  À sua frente toda a área do antigo campo de futebol foi calceta, iluminada e ocupada com mesas, bancos e assadores. Também tem algumas árvores, mas estas ainda não cresceram o suficiente para cumprirem a função para que foram plantadas.
Largo do Campo da Bola a 15 de Setembro
O espaço é muito agradável e ganha vida principalmente na noite de 15 para 16 de Setembro de cada ano. Grupos familiares ou de amigos montam aqui a sua farta mesa onde a marrã (carne de porco) é o elemento principal. Além dos assadores, já existem alguns no local, os diferentes grupos tratam da logística para que à noite não falte nada para a festa, comida e bebida. Muitas famílias cumprem um ritual semelhante junto as suas casas, nos quinteiros e átrios, fazendo do evento um grande momento de amizade e de confraternização. Estou em crer que este churrasco coletivo está a ganhar casa vez mais força, à medida que a venda de marrã no recinto da festa tende a diminuir.
Ruínas nas zonas mais antigas da aldeia
Há poucos dias foi transportado para perto do edifício da Junta de Freguesia um bloco de granito com uma figura antropomórfica escavada. Trata-se de uma sepultura que se encontrava algures no caminho entre a Lavandeira e o castelo de Ansiães, um pouco acima da chamada Fonte Nova. O local onde se encontrava não oferece muitas hipóteses de aí ter existido alguma necrópole. A sepultura podia estar a ser talhada nesse local para depois ser transportada para outro, acabando por ser abandonada. Os responsáveis pela freguesia acharam que no novo espaço está mais visível e protegida.
Vista parcial da aldeia de Lavandeira
O largo tem também um fontanário e um nicho com o Cristo Rei. Este último, que mostra indício de ali se encontrar há já algum tempo, não enriquece esteticamente o espaço e merecia um arranjo de forma a valoriza-lo e integrá-lo neste importante largo.
De volta ao centro da aldeia é fácil seguir por alguma ruela estreita que nos faz viajar no tempo.  Há algumas casas em granito com telha de canudo antiga, implantadas sobre as fragas de granito que afloram à superfície.
Nas proximidades destaca-se uma casa antiga, senhorial, quer pela dimensão, quer pela qualidade da construção, quer pelo terreno murado que tem adjacente, a casa dos Carvalhos. Do caminho que contorna esta propriedade tem-se uma vista bastante diferente da aldeia.
Pela rua Nova acede-se ao ponto de partida, o largo de Santa Eufémia, para a exploração de outra parte da aldeia.
Fonte do Gricho
Na rua da Escola fica a fonte do Gricho e a antiga escola. A fonte do Gricho também está a um nível inferior ao à estrada. A água ainda corre por um tubo metálico. Recordo-me de aqui ter vindo beber na minha meninice, quando ia às festas de Santa Eufémia. Antigamente a água jorrava em grande quantidade, sendo a passagem pedestre feita junto à parede, numa estreita passadeira. Mais abaixo havia lajes para lavar a roupa. Também havia uma pia com água para os animais beberem.

Continua:  À Descoberta de Lavandeira (3/3)

domingo, 5 de agosto de 2012

À Descoberta de Lavandeira (1/3)

Lavandeira é uma aldeia do concelho de Carrazeda de Ansiães, distando cerca de 7 km da sede. Muitos desconhecerão quase completo esta aldeia, recordando apenas o acontecimento de maior relevo que aí acontece todos os 15 e 16 de Setembro, as grandiosas festas em honra de Santa Eufémia. Outros farão a ligação da aldeia ao altaneiro e secular castelo de Ansiães, monumento ímpar no concelho, no distrito e mesmo na região, com uma história que se estende para lá da nacionalidade, podendo recuar mesmo à pré-história.
O visitante apressado, ou mesmo o romeiro dos dias de hoje, raramente tem tempo para saborear a beleza da paisagem, interpretar os sinais dos locais ou mesmo ter tempo para uma conversa sem hora marcada nem tema definido, apenas conversa, muitas vezes marcada pela recordação, pela saudade de pessoas, vivências e pelos espaços, que ainda existem mas que vão perdendo utilidade e significado. Por isso, pode ser interessante partir comigo numa "viagem",  À Descoberta de mais esta freguesia.
Lavandeira não é muito rica em determinado tipo de património, por exemplo capelas, basta compará-la com Selores, ali ao lado, mas, nem por isso os habitantes da aldeia deixam de ter orgulho em lá morar e em se empenharem em querer mantê-la limpa e florida, como poucas no concelho. Nas primeiras vezes que visitei a aldeia, e já lá vão algumas décadas, foram as flores espalhadas por cada rua, por cada beco, por cada entrada de casa, que me fizeram gostar do lugar. Não só pela beleza das flores, mas também porque a sua plantação e manutenção mostra sensibilidade e brio, que, infelizmente, não abunda em todos os locais que tenho visitado.
Mais recentemente visitei a aldeia por duas vezes, com espaço de um ano entre elas. Por coincidência ambas aconteceram em março, quando a natureza começa a despertar de um período de dormência, sendo esse despertar evidente nas hortas e quintais, cheios de nabiças e amendoeiras em flor. E são estas subtilezas que realçam a rusticidade com que eram construída as casas da aldeia, do mais puro e duro granito, tal como ainda é possível encontrar em muitas ruas.
Um passeio pela Lavandeira deve começar no seu centro, posso mesmo dizer pelo seu “coração”, o largo de Santa Eufémia. Em redor deste largo podem-se referenciar dois coretos (lembro-me de haver outro quase no centro), a Casa dos Milagres, o Centro de Dia e a Igreja Matriz.
 O Centro de Dia Santa Eufémia é uma IPSS que presta serviço a cerca de uma dezena de idosos. A sua ação alarga-se no apoio domiciliário a mais de duas dezenas de idosos espalhados por várias freguesias, algumas distantes, como o Castanheiro. O ambiente é calmo e luminoso com as vidraças viradas a poente, recebendo o sol quente do fim de tarde com a tranquilidade que só os idosos podem gozar. Às vezes cantam, outras rezam, mas a maior alegria é a companhia, que aqui se procuram.
 A Casa dos Milagres, agora ampla e remodelada, poderia contar histórias infindáveis de outros tempos, da grandeza das cerimónias que se desenvolviam em honra de Santa Eufémia. Já não há tulhas para guardar o cereal e outras dádivas trazidas pelos romeiros devotos que aqui se dirigiam, no entanto, ainda são visíveis alguns elementos que recordam o passado, como ex-votos, quadros pintados representando milagres e agradecimentos pela cura conseguida. Alguns estão datados do início do séc. XIX, mas a Casa dos Milagres tem na fachada o ano de 1929. Aqui se podem pagar promessas e comprar as mais variadas lembranças. Há desde uma simples vela (0,50€), ao corpo de uma pessoa em cera (250€).
 É também na Casa dos Milagres que está um surpreendente conjunto de cadernos com o nome dos irmãos da Confraria de Santa Eufémia. Esta confraria terá tido início no séc. XVI e conseguiu um considerável numero de irmãos (vários milhares) espalhados por vários concelhos. O Papa Pio XIV declarou-a como Irmandade Perpétua. A cobrança aos irmãos era feita em duas voltas (além-Tua e Vilariça) que abrangiam numerosos concelhos. As pessoas destacadas para a fazerem saíam no início de agosto e só regressavam em setembro. Durante esse tempo percorriam as aldeias, dormindo em casa de irmãos. Muitas aldeias tinham o seu próprio zelador, que se encarregava de fazer a recolha na sua aldeia. Devo dizer que sou irmão desta confraria desde que me lembro de ser gente!
Esta irmandade possuía um património em terras, que arrendava a bom dinheiro (noutros tempo). Além de mandar rezar uma missa por cada irmão que morria (com documento comprovativo que era enviado, penso que ainda é, para a morada do falecido), podia dar-se ao luxo de emprestar dinheiro.
Antes de uma visita à belíssima igreja matriz, talvez seja interessante fazer um percurso pela aldeia, conhecendo os seus espaços mais característicos.

Continua: À Descoberta de Lavandeira (2/3)