A Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães e a Junta de Freguesia de Marzagão organizaram no dia 14 de Outubro uma caminhada de 10,5 km, denominada Rota da Maçã.
Com o ritmo de caminhadas iniciadas na Primavera e continuadas no Verão, é quase certo que todas as iniciativas deste género conseguem mobilizar um bom número de participantes e esta não foi exceção.
Pensada desde alguns meses atrás para coincidir com a época da maçã, esta caminhada teve como atrativo exatamente a maçã, uma das principais produções agrícolas do concelho. Os pomares de macieiras encontram-se espalhados por todas as freguesias do planalto do concelho e, por isso, não seria difícil escolher um trajeto que levasse os participantes de encontro aos pomares.
Não percebi o cartaz e pensei que a caminhada teria início em Marzagão, por isso estava na aldeia à hora de início. Só mais tarde percebi que o início estava previsto para Carrazeda de Ansiães, para onde me desloquei o mais rápido de pude. Já não apanhei o início da caminhada, mas juntei-me ao grupo ainda em Carrazeda, perto da capela de Nossa Senhora de Fátima.
O dia estava cinzento, algo frio e a ameaçar com chuva a qualquer momento. Estas condições pouco favoráveis não assustaram os caminheiros, que apareceram em força, ainda em maior número. A maior parte das pessoas são habitues das caminhadas, mas alguns rostos vi-os pela primeira vez (também não tenho conseguido participar em todas as caminhadas).
O grupo desfez-se logo de início e nunca mais se juntou. Confesso que gosto mais quando o grupo se mantêm coeso, a pouca distância uns dos outros. Além de permitir conversar com muita gente, afinal já somos "companheiros" de muitos caminhos, também me proporciona oportunidades fotográficas únicas com a presença das pessoas, porque para fotografar as paisagens é muito melhor fazer o percurso sozinho, sem pressas para chegar.
Na antiga escola de 1.ºciclo de Luzelos foi servido o reforço. Nestas instalações funciona a Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Luzelos. Cheguei ao local acompanhado de um pequeno grupo de pessoas que mal parou! Segui caminho tentando não perder de vista outros participantes, o que veio a acontecer pouco depois de atravessar a estrada N214. Vi algumas pessoas junto de uma carrinha a alguns metros do caminho, mas não percebi a razão, afinal era outro local de reforço!
A partir desse ponto segui sozinho até Marzagão! O percurso percorreu pomares de macieiras em Carrazeda, Luzelos, Arnal, Parambos e Marzagão. Já havia poucas maçãs nas árvores. Em contrapartida ainda se viam algumas uvas bem apetitosas nas parreiras.
Houve um momento que cheguei a duvidar se estaria no percurso certo, mas quando cheguei a Arnal tive a certeza que sim. Felizmente não tinha visto nem ouvido nenhuma notícia sobre o que se tem passado nesta aldeia, caso contrário não teria circulado com tanta tranquilidade.
A capela de Arnal estava aberta. Foi uma boa ideia, porque ficava no percurso e assim todos podemos visitá-la. Foi a primeira vez que entrei naqueles espaço e gostei bastante.
Continuei o caminho sozinho. Entre Arnal e Marzagão o percurso atravessou o ponto mais negro, precisamente uma área ardida! o cenário deplorável, com pinhal (e vinha) ardido. Depois vieram os pomares, grandes, que devem oferecer um belo cenário quando estão floridos ou carregados de frutos.
Um pouco mais à frente está um dos principais monumentos de Marzagão, a Ponte do Galego.
Trata-se de uma ponte muito antiga, em pedra, com altura superior ao nível da estrada, motivo pela qual tem rampas de acesso ao tabuleiro. Por baixo deste figuram dois arcos de volta perfeita. Já foi alvo de reformas no século XX.
Na aldeia ainda tive tempo para uma visita a algumas ruas e à igreja, monumento obrigatório para quem vai a Marzagão.
No bar da Comissão de Festas já se preparavam as coisas para o almoço. A julgar pelos preparativos deve ter uma boa confraternização, pelo repasto e pela companhia. Não fiquei para a refeição, tinha outros compromissos que me obrigaram a abandonar o grupo "no melhor da festa".
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
1 Dia por terras de Ansiães (8)
Já há bastante tempo que não reservava um dia inteiro para passar a percorrer o concelho, por isso foi com bastante entusiasmo que no dia 5 cheguei a Carrazeda. Tenho sempre um destino em mente, mas os planos vão-se alterando ao sabor da Descoberta, com acontecimentos banais como o chuva, a fome, o cansaço ou a disponibilidade das pessoas que encontro.
O destino centrava-se em Beira Grande, mas a sessão fotográfica começou logo na Junta de Freguesia de Carrazeda de Ansiães, onde fiz a primeira paragem.
Rumei para Beira Grande. O dia estava frio, com algumas nuvens mas prometia boas condições para a fotografia. A aldeia é pequena e pouco povoada. Optei por continuar em direção ao Douro no intuito de investigar um pouco sobre o rumores que tinha ouvido sobre a existência de um povoado antigo, que pode ter sido a aldeia que antecedeu a atual Beira Grande. Conhecia vagamente o local e como fica situado junto da estrada não me foi difícil encontrá-lo.
Procurei as evidências de que me tinham falado: alicerces de casas, da igreja e do cemitério. A quantidade de pedras soltas é enorme e encontram-se alinhadas formando paredes algumas com mais de um metro de largura. É possível que aqui tenha existido um povoado fortificado mas o local foi utilizado para a agricultura até à atualidade, sendo difícil saber o que remonta à idade média e o que é resultado da adaptação dos terrenos para a agricultura. Está garantido que no local existiu um povoado, o IGESPAR já o visitou várias vezes. É conhecido pelo nome de S. Pedro.
Procurei também os vestígios da chamada Fonte Santa, a alguma distância do antigo povoado e a uma quota bastante inferior. A antiga fonte deu lugar a um poço, aberto por uma giratória e tem bastante água. A designação Fonte Santa parece ser atribuída a várias fontes, todas nas imediações. Um cruzeiro granítico na berma da estrada ajuda a sinalizar o local.
Do topo do cume onde existiu o povoado já se avista o rio Douro, mas, para poente, é visível um marco geodésico a alguma distância, que despertou a minha curiosidade.
O marco geodésico do Seixo dos Corvos eleva-se a 552 metros de altitude. Apesar de estar a uma quota inferior à de outro marco geodésico existente no termo de Beira Grande, o do Arejadouro, a quase 700 metros de altitude, a sua localização mais próxima da bacia do Douro permite avistar uma paisagem indescritível, que só ao longo do Douro se pode admirar. Mas para norte, a paisagem também é bela, embora agreste, agora totalmente ao abandono e devastada por incêndios. No fundo do vale corre o ribeiro do Síbio, ainda completamente seco, que tem origem em Seixo de Manhoses e passa junto à aldeia de Beira Grande. As encostas rochosas são ciclópicas e atingem os 750 metros de altitude no seguimento da encosta onde se encontra a Lavandeira.
Também muito interessante é um pico rochoso, quartezítico, que se destaca na paisagem e que dá o nome ao local, o Seixo dos Corvos.
No intuito de avistar melhor a ponte ferroviária da Ferradosa, local onde o a linha do comboio atravessa o Douro, continuei pela crista na montanha mais para jusante, até que o relevo acidentado não me deixou progredir. E foi com uma paisagem privilegiada à minha frente que me sentei numa fraga a saborear o almoço que levava na mochila que carregava às costas.
Saciado o estômago e a alma, regressei à estrada e desci ao Miradouro que integra a Rota do Douro. O local é agradável e a paisagem bucólica, mas depois do que eu avistei lá do alto, já não me mereceu tanta demora.
Dividi-me entre a vontade de continuar a descer e percorrer as quintas do Douro até chegar a Ribeirinha, ou voltar para trás, para a aldeia de Beira Grande. Como pretendia fazer um longo passeio pela aldeia, voltei para trás.
Como disse inicialmente a aldeia de Beira Grande é pouco povoada. As ruas mais antigas poucos moradores têm e há mesmo becos abandonados há décadas. As pessoas e casas deslocaram-se para junto da estrada com nome Avenida Principal, mas também para a Rua do Cemitério ou Rua da Costa. Percorri as zonas mais antigas (é uma tendência minha ir sempre para as partes mais velhas!). Não encontrei viva alma e ainda bem, porque às vezes não é fácil explicar o que que se faz a espreitar em todos os becos e vielas.
Há muitas casas em ruínas, grande parte delas térreas, com uma interessante utilização do granito. Não há casas brasonadas ou outras que se destaquem pela sua imponência. Há algumas antigas, recuperadas com gosto e também algumas vivendas novas, onde não se pode espreitar sob penas de sermos filmados. A antiga escola primária, a primeira (porque houve uma segunda da década de 60), recuperada e adaptada para a Junta de Freguesia, é um dos edifícios mais interessantes.
A mesma estrada (N632-3) toma diferentes nomes ao longo da aldeia: começa por ser Rua da Lameirinha, depois Rua da Portela, Rua do Geraldo e Avenida Principal! Visitei a Rua da Costa, a Rua do Cemitério e a Rua do Pereiro, nestas últimas duas estive pela primeira vez. O percurso terminou no Largo de Santo António junto à Igreja Matriz. Externamente o templo tem poucos elementos arquitetónicos de relevo, destacando-se os painéis solares no telhado e, na cornija do alçado lateral direito uma pequena figura humana a que chamam borrachona, de que falarei noutra altura. A igreja estava fechada, bem como a capela ali próxima. Reposei um pouco no coreto da Rua da Mina.
Ouvi vozes e dirigi-me para lá. Dois habitantes locais descascavam amêndoa e aproveitei para meter conversa. Ganhei algumas informações e um copo de tinto. Como a tarde já ia adiantada parti.
Para saber informações sobre a caminhada da Rota das Maçãs ainda fiz uma incursão a Marzagão. O dia tinha sido de vindima e tentavam meter todas as uvas no lagar, tarefa que não foi superada (mesmo com menos um saco delas, que me foi oferecido).
No bar ao lado já bebiam uns copos e descansavam da azáfama do dia.
A noite chegou e com ela terminou mais um dia À Descoberta por terras de Ansiães. Foi um dia sobretudo de silêncio, de comunhão com a paisagem; de austero granito e de afável receção, por parte das poucas pessoas com quem falei. É destas coisas que Ansiães é feita.
O destino centrava-se em Beira Grande, mas a sessão fotográfica começou logo na Junta de Freguesia de Carrazeda de Ansiães, onde fiz a primeira paragem.
Rumei para Beira Grande. O dia estava frio, com algumas nuvens mas prometia boas condições para a fotografia. A aldeia é pequena e pouco povoada. Optei por continuar em direção ao Douro no intuito de investigar um pouco sobre o rumores que tinha ouvido sobre a existência de um povoado antigo, que pode ter sido a aldeia que antecedeu a atual Beira Grande. Conhecia vagamente o local e como fica situado junto da estrada não me foi difícil encontrá-lo.
Procurei as evidências de que me tinham falado: alicerces de casas, da igreja e do cemitério. A quantidade de pedras soltas é enorme e encontram-se alinhadas formando paredes algumas com mais de um metro de largura. É possível que aqui tenha existido um povoado fortificado mas o local foi utilizado para a agricultura até à atualidade, sendo difícil saber o que remonta à idade média e o que é resultado da adaptação dos terrenos para a agricultura. Está garantido que no local existiu um povoado, o IGESPAR já o visitou várias vezes. É conhecido pelo nome de S. Pedro.
Procurei também os vestígios da chamada Fonte Santa, a alguma distância do antigo povoado e a uma quota bastante inferior. A antiga fonte deu lugar a um poço, aberto por uma giratória e tem bastante água. A designação Fonte Santa parece ser atribuída a várias fontes, todas nas imediações. Um cruzeiro granítico na berma da estrada ajuda a sinalizar o local.
Do topo do cume onde existiu o povoado já se avista o rio Douro, mas, para poente, é visível um marco geodésico a alguma distância, que despertou a minha curiosidade.
O marco geodésico do Seixo dos Corvos eleva-se a 552 metros de altitude. Apesar de estar a uma quota inferior à de outro marco geodésico existente no termo de Beira Grande, o do Arejadouro, a quase 700 metros de altitude, a sua localização mais próxima da bacia do Douro permite avistar uma paisagem indescritível, que só ao longo do Douro se pode admirar. Mas para norte, a paisagem também é bela, embora agreste, agora totalmente ao abandono e devastada por incêndios. No fundo do vale corre o ribeiro do Síbio, ainda completamente seco, que tem origem em Seixo de Manhoses e passa junto à aldeia de Beira Grande. As encostas rochosas são ciclópicas e atingem os 750 metros de altitude no seguimento da encosta onde se encontra a Lavandeira.
Também muito interessante é um pico rochoso, quartezítico, que se destaca na paisagem e que dá o nome ao local, o Seixo dos Corvos.
No intuito de avistar melhor a ponte ferroviária da Ferradosa, local onde o a linha do comboio atravessa o Douro, continuei pela crista na montanha mais para jusante, até que o relevo acidentado não me deixou progredir. E foi com uma paisagem privilegiada à minha frente que me sentei numa fraga a saborear o almoço que levava na mochila que carregava às costas.
Saciado o estômago e a alma, regressei à estrada e desci ao Miradouro que integra a Rota do Douro. O local é agradável e a paisagem bucólica, mas depois do que eu avistei lá do alto, já não me mereceu tanta demora.
Dividi-me entre a vontade de continuar a descer e percorrer as quintas do Douro até chegar a Ribeirinha, ou voltar para trás, para a aldeia de Beira Grande. Como pretendia fazer um longo passeio pela aldeia, voltei para trás.
Como disse inicialmente a aldeia de Beira Grande é pouco povoada. As ruas mais antigas poucos moradores têm e há mesmo becos abandonados há décadas. As pessoas e casas deslocaram-se para junto da estrada com nome Avenida Principal, mas também para a Rua do Cemitério ou Rua da Costa. Percorri as zonas mais antigas (é uma tendência minha ir sempre para as partes mais velhas!). Não encontrei viva alma e ainda bem, porque às vezes não é fácil explicar o que que se faz a espreitar em todos os becos e vielas.
Há muitas casas em ruínas, grande parte delas térreas, com uma interessante utilização do granito. Não há casas brasonadas ou outras que se destaquem pela sua imponência. Há algumas antigas, recuperadas com gosto e também algumas vivendas novas, onde não se pode espreitar sob penas de sermos filmados. A antiga escola primária, a primeira (porque houve uma segunda da década de 60), recuperada e adaptada para a Junta de Freguesia, é um dos edifícios mais interessantes.
A mesma estrada (N632-3) toma diferentes nomes ao longo da aldeia: começa por ser Rua da Lameirinha, depois Rua da Portela, Rua do Geraldo e Avenida Principal! Visitei a Rua da Costa, a Rua do Cemitério e a Rua do Pereiro, nestas últimas duas estive pela primeira vez. O percurso terminou no Largo de Santo António junto à Igreja Matriz. Externamente o templo tem poucos elementos arquitetónicos de relevo, destacando-se os painéis solares no telhado e, na cornija do alçado lateral direito uma pequena figura humana a que chamam borrachona, de que falarei noutra altura. A igreja estava fechada, bem como a capela ali próxima. Reposei um pouco no coreto da Rua da Mina.
Ouvi vozes e dirigi-me para lá. Dois habitantes locais descascavam amêndoa e aproveitei para meter conversa. Ganhei algumas informações e um copo de tinto. Como a tarde já ia adiantada parti.
Para saber informações sobre a caminhada da Rota das Maçãs ainda fiz uma incursão a Marzagão. O dia tinha sido de vindima e tentavam meter todas as uvas no lagar, tarefa que não foi superada (mesmo com menos um saco delas, que me foi oferecido).
No bar ao lado já bebiam uns copos e descansavam da azáfama do dia.
A noite chegou e com ela terminou mais um dia À Descoberta por terras de Ansiães. Foi um dia sobretudo de silêncio, de comunhão com a paisagem; de austero granito e de afável receção, por parte das poucas pessoas com quem falei. É destas coisas que Ansiães é feita.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Caminho azul
Uma fotografia um pouco insólita que captei na albufeira de Fontelonga. O passadiço estava molhado e o dias estava no fim. Estes fatores ajudaram a criar um ambiente que me agrada bastante na fotografia.
domingo, 14 de outubro de 2012
O Outono chegou
Por estes dias quem poder passar pelo parque verde de Carrazeda de Ansiães, situado na zona envolvente às Piscinas Municipais, na Barragem de Fontelonga, poderá apreciar um cenário outonal único no concelho. Trata-se do colorido outonal de algumas espécies arbóreas e arbustivas, não autóctones mas que proporcionam um regalo para a vista.
O espaço já conheceu melhores dias. As pequenas "ilhas" de arbustos estão praticamente abandonadas e a precisar de manutenção. Também, não admira, a falta de pessoal, verbas ou vontade deixou morrer grande parte das oliveiras plantadas recentemente ao longo da estrada no Moinho do Vento. Não percebo para que gastam dinheiro com as coisas para depois as deixarem ao abandono.
O espaço já conheceu melhores dias. As pequenas "ilhas" de arbustos estão praticamente abandonadas e a precisar de manutenção. Também, não admira, a falta de pessoal, verbas ou vontade deixou morrer grande parte das oliveiras plantadas recentemente ao longo da estrada no Moinho do Vento. Não percebo para que gastam dinheiro com as coisas para depois as deixarem ao abandono.
domingo, 7 de outubro de 2012
À Descoberta de Belver (3/3)
Continuação de : À Descoberta de Belver 2/3
A capela foi construída aproveitando a existência de um cruzeiro em pedra com duas imagens, nas costas uma da outra, Santo Cristo da Agonia e Nª Sª do Amparo. O altar, ou melhor os altares, de costas um para o outro foram construídos mantendo as imagens em pedra no centro da talha em madeira, estando situados, mais ou menos, no meio da capela. Como tem duas portas de entrada e dois altares, pode dizer-se que é uma capela dupla, onde dois padres podem celebrar ao mesmo tempo, sem se verem. O fuste do cruzeiro e as imagens estão completamente pintados, não se notando, à primeira vista, a separação entre a pedra e a talha dos altares. O cruzeiro é muito mais antigo de que a capela, não se sabendo ao certo a sua origem. Ainda há pouco tempo vi um semelhante em Alcanices.
Esta capela foi atingida por um relâmpago em maio de 2011. O poder destrutivo começou na cruz cimeira, seguiu pela instalação elétrica, espalhou-se pelos altares fazendo saltar faíscas por todos os lados. As toalhas brancas dos ficaram com buracos causados pelo fogo. Foi recuperada, sendo mínimos os vestígios desse acidente. A cruz foi substituída, porque se partiu quando caiu ao chão. O interior foi restaurado e pintado. Também nas casas vizinhas o susto foi enorme causando estragos nos eletrodomésticos.
A capela é usada é usada como casa mortuária. A população é pouca e o espaço suficiente e aconchegado.
Há mais uma curiosidade nesta capela – a Pedra da Morte. O nome é sugestivo, mas a sua origem não é muito clara. A pedra tem quase um metro de altura e uma forma que se assemelha à base de um pilar. Seria a base do cruzeiro? É pouco provável. Apresenta em relevo uma figura humana, o próprio diabo, dizem. Há quem distinga nela os chifres e o rabo, que parte de um lado, e contorna toda a pedra. O que é garantido é que ela se encontrava no exterior da capela. Apenas foi colocada no interior com receio de que fosse roubada. Também é verdade que, em tempos idos, os rapazes mediam forças, uns com os outros, transportando a pedra às contas em voltas à capela.
Está referenciada também uma ermida, dedicada a S. Martinho, a um quarto de légua da igreja, mas desconheço a sua localização
A igreja matriz está próxima. Este templo deve ter sido construído no séc. XVI e reformulado mais tarde. Cristiano Morais diz que foi ampliada em 1775. Exteriormente é de linhas simples, constituída por uma planta longitudinal, composta por nave única e capela-mor. Apresenta uma torre sineira na fachada, dupla e central. Os pináculos, quer na igreja, quer na sacristia lateral, são singelos. No interior o retábulo que cobre o arco triunfal de volta perfeita e que integra os altares colaterais maneiristas, não é contemporâneo do da capela-mor. Este último foi restaurando há menos tempo, mas um pouco de atenção nos motivos evidenciam diferenças, para além do facto de um estar restaurado e do outro necessitar de restauro. Gosto mais do rendilhado do retábulo da nave.
No teto estão pintados os quatro evangelistas, os doze apóstolos e Nª Sª das Dores.
Desde a última vez que estive na igreja houve algumas alterações. O ambão mudou de lado. A imagem de Nª Sª das Neves também mudou de posição. Em 2008 estava do lado do Evangelho e atualmente encontra-se do lado da Epístola. Tal mudança parece dever-se à existência de uma outra imagem, a de Nossa Senhora de Fátima, do lado do Evangelho. Qualquer pessoa que entre na igreja vai procurar a imagem do padroeiro/a na lugar em que se encontra hoje S. Pedro! Já em 1758 S. Pedro, com uma irmandade na paróquia e N.ª Sª das Neves, partilhavam o altar da capela-mor, mas a imagem da virgem com o Memino seria a que se encontra hoje na nave principal da igreja, que é muito vistosa. Esta imagem estava em 2008 num altar lateral, que foi entretanto desmontado e removido!
Há mais imagens na igreja, mas a de Stª Ana e a de Nª Sª da Conceição merecem algum destaque.
Abandonado o adro da igreja e caminhando mais algumas centenas de metros em direção a Fontelonga, encontra-se o ribeiro do Moinho. Nele existem tanques para lavar roupa, mesmo no leito do ribeiro, junto ao antigo moinho. Deixa-se a estrada, à esquerda e caminha-se um pouco ao longo do ribeiro até atingir o moinho. Está prevista a sua recuperação por parte da Liga dos Amigos de Belver, mas não está minimamente preparado para ser visitado. Andei em volta e não consegui descobrir a porta! Com pena minha, abandonei o local.
De novo na estrada, se o tempo disponível for suficiente e a vontade de caminhar for muita, pode seguir-se em direção ao bairro das Carvalhas e daí para a fraga das ferraduras. Este sítio de arte rupestre fica a aproximadamente 2 km de distância. Uma vez que se situa a poucos metros de distância da estrada que segue para a Piscina Municipal e barragem da Fontelonga é possível aceder-lhe facilmente em automóvel.
De regresso ao largo da Praça, falta uma última paragem, na fonte da Romana. Fica na canelha da Figueira, a curta distância da capela do Santo Cristo. Trata-se de uma fonte de mergulho, parcialmente abatida, mas que ainda têm água que é usada para regar algumas hortas em volta. Seria muito bom que se procedesse à preservação desta estrutura, bem bonita e que deve trazer boas recordações às pessoas mais idosas.
Termina assim o passeio À Descoberta de Belver. A aldeia apresenta um bom conjunto de pontos de interesse para ser visitada, com casas tradicionais, fontes e algum património religioso. O principal problema de Belver, é, sem dúvida, a falta de gente que utilize os espaços, que cuide deles, para que seja mais agradável viver neles e visita-los.
O encontro da Liga dos Amigos de Belver está marcado para agosto. Estive presente 2008 e posso garantir que os belverenses são exemplares no bem receber (bem à maneira transmontana). Até lá…
Artigo publicado do jornal O Pombal, em Julho de 2012
A capela foi construída aproveitando a existência de um cruzeiro em pedra com duas imagens, nas costas uma da outra, Santo Cristo da Agonia e Nª Sª do Amparo. O altar, ou melhor os altares, de costas um para o outro foram construídos mantendo as imagens em pedra no centro da talha em madeira, estando situados, mais ou menos, no meio da capela. Como tem duas portas de entrada e dois altares, pode dizer-se que é uma capela dupla, onde dois padres podem celebrar ao mesmo tempo, sem se verem. O fuste do cruzeiro e as imagens estão completamente pintados, não se notando, à primeira vista, a separação entre a pedra e a talha dos altares. O cruzeiro é muito mais antigo de que a capela, não se sabendo ao certo a sua origem. Ainda há pouco tempo vi um semelhante em Alcanices.
Esta capela foi atingida por um relâmpago em maio de 2011. O poder destrutivo começou na cruz cimeira, seguiu pela instalação elétrica, espalhou-se pelos altares fazendo saltar faíscas por todos os lados. As toalhas brancas dos ficaram com buracos causados pelo fogo. Foi recuperada, sendo mínimos os vestígios desse acidente. A cruz foi substituída, porque se partiu quando caiu ao chão. O interior foi restaurado e pintado. Também nas casas vizinhas o susto foi enorme causando estragos nos eletrodomésticos.
A capela é usada é usada como casa mortuária. A população é pouca e o espaço suficiente e aconchegado.
Há mais uma curiosidade nesta capela – a Pedra da Morte. O nome é sugestivo, mas a sua origem não é muito clara. A pedra tem quase um metro de altura e uma forma que se assemelha à base de um pilar. Seria a base do cruzeiro? É pouco provável. Apresenta em relevo uma figura humana, o próprio diabo, dizem. Há quem distinga nela os chifres e o rabo, que parte de um lado, e contorna toda a pedra. O que é garantido é que ela se encontrava no exterior da capela. Apenas foi colocada no interior com receio de que fosse roubada. Também é verdade que, em tempos idos, os rapazes mediam forças, uns com os outros, transportando a pedra às contas em voltas à capela.
Está referenciada também uma ermida, dedicada a S. Martinho, a um quarto de légua da igreja, mas desconheço a sua localização
A igreja matriz está próxima. Este templo deve ter sido construído no séc. XVI e reformulado mais tarde. Cristiano Morais diz que foi ampliada em 1775. Exteriormente é de linhas simples, constituída por uma planta longitudinal, composta por nave única e capela-mor. Apresenta uma torre sineira na fachada, dupla e central. Os pináculos, quer na igreja, quer na sacristia lateral, são singelos. No interior o retábulo que cobre o arco triunfal de volta perfeita e que integra os altares colaterais maneiristas, não é contemporâneo do da capela-mor. Este último foi restaurando há menos tempo, mas um pouco de atenção nos motivos evidenciam diferenças, para além do facto de um estar restaurado e do outro necessitar de restauro. Gosto mais do rendilhado do retábulo da nave.
No teto estão pintados os quatro evangelistas, os doze apóstolos e Nª Sª das Dores.
Desde a última vez que estive na igreja houve algumas alterações. O ambão mudou de lado. A imagem de Nª Sª das Neves também mudou de posição. Em 2008 estava do lado do Evangelho e atualmente encontra-se do lado da Epístola. Tal mudança parece dever-se à existência de uma outra imagem, a de Nossa Senhora de Fátima, do lado do Evangelho. Qualquer pessoa que entre na igreja vai procurar a imagem do padroeiro/a na lugar em que se encontra hoje S. Pedro! Já em 1758 S. Pedro, com uma irmandade na paróquia e N.ª Sª das Neves, partilhavam o altar da capela-mor, mas a imagem da virgem com o Memino seria a que se encontra hoje na nave principal da igreja, que é muito vistosa. Esta imagem estava em 2008 num altar lateral, que foi entretanto desmontado e removido!
Há mais imagens na igreja, mas a de Stª Ana e a de Nª Sª da Conceição merecem algum destaque.
Abandonado o adro da igreja e caminhando mais algumas centenas de metros em direção a Fontelonga, encontra-se o ribeiro do Moinho. Nele existem tanques para lavar roupa, mesmo no leito do ribeiro, junto ao antigo moinho. Deixa-se a estrada, à esquerda e caminha-se um pouco ao longo do ribeiro até atingir o moinho. Está prevista a sua recuperação por parte da Liga dos Amigos de Belver, mas não está minimamente preparado para ser visitado. Andei em volta e não consegui descobrir a porta! Com pena minha, abandonei o local.
De novo na estrada, se o tempo disponível for suficiente e a vontade de caminhar for muita, pode seguir-se em direção ao bairro das Carvalhas e daí para a fraga das ferraduras. Este sítio de arte rupestre fica a aproximadamente 2 km de distância. Uma vez que se situa a poucos metros de distância da estrada que segue para a Piscina Municipal e barragem da Fontelonga é possível aceder-lhe facilmente em automóvel.
De regresso ao largo da Praça, falta uma última paragem, na fonte da Romana. Fica na canelha da Figueira, a curta distância da capela do Santo Cristo. Trata-se de uma fonte de mergulho, parcialmente abatida, mas que ainda têm água que é usada para regar algumas hortas em volta. Seria muito bom que se procedesse à preservação desta estrutura, bem bonita e que deve trazer boas recordações às pessoas mais idosas.
Termina assim o passeio À Descoberta de Belver. A aldeia apresenta um bom conjunto de pontos de interesse para ser visitada, com casas tradicionais, fontes e algum património religioso. O principal problema de Belver, é, sem dúvida, a falta de gente que utilize os espaços, que cuide deles, para que seja mais agradável viver neles e visita-los.
O encontro da Liga dos Amigos de Belver está marcado para agosto. Estive presente 2008 e posso garantir que os belverenses são exemplares no bem receber (bem à maneira transmontana). Até lá…
Artigo publicado do jornal O Pombal, em Julho de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
À Descoberta de Belver (2/3)
Continuação de: À Descoberta de Belver (1/3)
A rua do Vale tem continuação pela rua da Escola. Nela não se ouvem os risos das crianças e algumas casas estão desabitadas. É direita e larga, contrastando com todas as das zonas mais antigas da aldeia. Liga a caminhos vicinais que se estendem até Carrazeda de Ansiães.
Na antiga Escola Primária funciona agora a sede da Liga dos Amigos de Belver. Constituída em 2006 e com muitos dos associados fora da aldeia, a principal atividade da Liga tem sido a realização de um convívio nos primeiros dias de agosto. No entanto, os seus objetivos são mais ambiciosos e, em parte, têm sido conseguidos: melhoria das instalações e o seu aproveitamento mais frequente; recuperação da fonte de mergulho da canelha da Figueira e a aquisição e recuperação do moinho existente no ribeiro do Moinho.
A falta de uso do recinto da escola é evidente, necessitando urgentemente de limpeza.
O “recreio” é dos poucos pontos da aldeia de onde se avista alguma paisagem. Não é difícil imaginar os campos cheios de vida. Aliás, isso ainda se verifica nas pequenas hortas encostadas às casas, onde se regam as alfaces, cebolas, tomateiros e pimenteiros, rodeados de flores, que salpicam de cor todas as hortas transmontanas.
Na veiga, mais latifundiária, só sobraram algumas leiras de batatas, já com flor, outras de milho, culturas bem representativas do potencial agrícola das terras.
Está na altura de segar a erva dos lameiros. As gramíneas floriram e os finos caules dobram-se com o peso das espigas. Os troques, com a sua cor garrida, crescem hirtos nas paredes ao longo dos caminhos com arranjos de verde de cenoura brava. As giestas negrais, que aqui crescem como carvalhos, ostentam o que restou do seu manto amarelo, recolhido por calejadas mãos para as passadeiras do Dia do Corpo de Deus.
Ao longo das margens da ribeira do Moinho, que se estende até próximo da Carrazeda, e continuando pela Veiga, há grandes retalhos de terrenos férteis, outrora sustento de famílias numerosas, estão reduzidos à alimentação do gado, também ele cada vez menos abundante.
Regressemos às ruas. Caminhemos até ao largo da sede da Junta de Freguesia. O edifício é pequeno, recente e não desperta muito a atenção. O elemento de maior interesse neste largo é, sem dúvida, uma curiosa fonte datada de 1924. Esta fonte é única no concelho, constituída por um depósito, um tanque para os animais beberem, uma torneira para recolha de água e um pequeno tanque para lavar a roupa. Estas últimas três valências estão interligadas por um sulco do em granito por onde a água circula por gravidade até se depositar do tanque de lavagem da roupa. Muito bem situada, e ainda com plena utilização, esta fonte é um dos elementos do património construídos com mais interesse em Belver.
Chegámos ao ponto de partida. A aldeia é dividida pela Estrada Municipal 627 que no interior da povoação recebe o nome de rua Marechal Gomes da Costa. É por ela que se tem acesso a Belver e se pode sair em direção a Fontelonga. As bonitas vivendas que existem na aldeia foram construídas à entrada, de um e do outro lado da estrada. É também à entrada da aldeia que se encontra um nicho muito recente, elegante, em granito, inaugurado em 2009. A imagem é de Nª Sª das Neves.
No interior da aldeia ladeiam a estrada casas mais antigas, algumas com traça interessante. As curiosidades vão surgindo, como duas caras esculpidas, perto do largo da Junta, um relógio de sol sobre um muro, depois do largo da Praça, algumas pedras trabalhadas e datas gravadas nas vigas e fachadas das casas. Sendo possível que existam habitações desde o séc. XII, a data mais antiga que encontrei gravada foi 1668, sendo a maior parte do séc. XX. Num beco está gravado MDCCLXV, em letras enormes, na viga de uma porta.
Um pouco mais à frente surge a capela de Santo Cristo, visita obrigatória na Descoberta desta aldeia.
Nas Memórias Paroquiais de 1758 são citadas como existentes em Belver 4 capelas: uma no cemitério, a capela da Visitação de Santa Isabel, particular, tendo como administrador António de Morais, de Zedes; a segunda na meio do povo, de Nª Sª do Carmo, particular, sendo administrador António José Monteiro; a terceira no fim do povo, indo para Carrazeda, a de S. Pedro, também particular, administrada por António Gonçalves. A quarta era precisamente a capela de Santo Cristo.
“Tem mais esta freguezia outra Capella que há poucos anos que se principiou que ainda nom esta benta”. A julgar pela data inscrita por debaixo do parapeito de uma das janelas terá sido concluída em 1765. Contam as pessoas que foi mandada construir por um emigrante no Brasil, que, sendo colhido por uma tempestade numa das suas viagens, prometeu construir esta capela por quanto chegasse bem à sua terra natal. Tendo sobrevivido, cumpriu a promessa.
As Memórias Paroquiais contam uma história um pouco diferente. A capela foi construída com a contribuição de doentes que se curaram, “como se verefica dos mylagres que nella estam” (deveria estar a referir-se ao que conhecemos hoje por ex-votos, e que não existem na capela) e com dádivas dos fiéis.
Continua em: À Descoberta de Belver (3/3)
A rua do Vale tem continuação pela rua da Escola. Nela não se ouvem os risos das crianças e algumas casas estão desabitadas. É direita e larga, contrastando com todas as das zonas mais antigas da aldeia. Liga a caminhos vicinais que se estendem até Carrazeda de Ansiães.
Na antiga Escola Primária funciona agora a sede da Liga dos Amigos de Belver. Constituída em 2006 e com muitos dos associados fora da aldeia, a principal atividade da Liga tem sido a realização de um convívio nos primeiros dias de agosto. No entanto, os seus objetivos são mais ambiciosos e, em parte, têm sido conseguidos: melhoria das instalações e o seu aproveitamento mais frequente; recuperação da fonte de mergulho da canelha da Figueira e a aquisição e recuperação do moinho existente no ribeiro do Moinho.
A falta de uso do recinto da escola é evidente, necessitando urgentemente de limpeza.
O “recreio” é dos poucos pontos da aldeia de onde se avista alguma paisagem. Não é difícil imaginar os campos cheios de vida. Aliás, isso ainda se verifica nas pequenas hortas encostadas às casas, onde se regam as alfaces, cebolas, tomateiros e pimenteiros, rodeados de flores, que salpicam de cor todas as hortas transmontanas.
Na veiga, mais latifundiária, só sobraram algumas leiras de batatas, já com flor, outras de milho, culturas bem representativas do potencial agrícola das terras.
Está na altura de segar a erva dos lameiros. As gramíneas floriram e os finos caules dobram-se com o peso das espigas. Os troques, com a sua cor garrida, crescem hirtos nas paredes ao longo dos caminhos com arranjos de verde de cenoura brava. As giestas negrais, que aqui crescem como carvalhos, ostentam o que restou do seu manto amarelo, recolhido por calejadas mãos para as passadeiras do Dia do Corpo de Deus.
Ao longo das margens da ribeira do Moinho, que se estende até próximo da Carrazeda, e continuando pela Veiga, há grandes retalhos de terrenos férteis, outrora sustento de famílias numerosas, estão reduzidos à alimentação do gado, também ele cada vez menos abundante.
Regressemos às ruas. Caminhemos até ao largo da sede da Junta de Freguesia. O edifício é pequeno, recente e não desperta muito a atenção. O elemento de maior interesse neste largo é, sem dúvida, uma curiosa fonte datada de 1924. Esta fonte é única no concelho, constituída por um depósito, um tanque para os animais beberem, uma torneira para recolha de água e um pequeno tanque para lavar a roupa. Estas últimas três valências estão interligadas por um sulco do em granito por onde a água circula por gravidade até se depositar do tanque de lavagem da roupa. Muito bem situada, e ainda com plena utilização, esta fonte é um dos elementos do património construídos com mais interesse em Belver.
Chegámos ao ponto de partida. A aldeia é dividida pela Estrada Municipal 627 que no interior da povoação recebe o nome de rua Marechal Gomes da Costa. É por ela que se tem acesso a Belver e se pode sair em direção a Fontelonga. As bonitas vivendas que existem na aldeia foram construídas à entrada, de um e do outro lado da estrada. É também à entrada da aldeia que se encontra um nicho muito recente, elegante, em granito, inaugurado em 2009. A imagem é de Nª Sª das Neves.
No interior da aldeia ladeiam a estrada casas mais antigas, algumas com traça interessante. As curiosidades vão surgindo, como duas caras esculpidas, perto do largo da Junta, um relógio de sol sobre um muro, depois do largo da Praça, algumas pedras trabalhadas e datas gravadas nas vigas e fachadas das casas. Sendo possível que existam habitações desde o séc. XII, a data mais antiga que encontrei gravada foi 1668, sendo a maior parte do séc. XX. Num beco está gravado MDCCLXV, em letras enormes, na viga de uma porta.
Um pouco mais à frente surge a capela de Santo Cristo, visita obrigatória na Descoberta desta aldeia.
Nas Memórias Paroquiais de 1758 são citadas como existentes em Belver 4 capelas: uma no cemitério, a capela da Visitação de Santa Isabel, particular, tendo como administrador António de Morais, de Zedes; a segunda na meio do povo, de Nª Sª do Carmo, particular, sendo administrador António José Monteiro; a terceira no fim do povo, indo para Carrazeda, a de S. Pedro, também particular, administrada por António Gonçalves. A quarta era precisamente a capela de Santo Cristo.
“Tem mais esta freguezia outra Capella que há poucos anos que se principiou que ainda nom esta benta”. A julgar pela data inscrita por debaixo do parapeito de uma das janelas terá sido concluída em 1765. Contam as pessoas que foi mandada construir por um emigrante no Brasil, que, sendo colhido por uma tempestade numa das suas viagens, prometeu construir esta capela por quanto chegasse bem à sua terra natal. Tendo sobrevivido, cumpriu a promessa.
As Memórias Paroquiais contam uma história um pouco diferente. A capela foi construída com a contribuição de doentes que se curaram, “como se verefica dos mylagres que nella estam” (deveria estar a referir-se ao que conhecemos hoje por ex-votos, e que não existem na capela) e com dádivas dos fiéis.
Continua em: À Descoberta de Belver (3/3)
domingo, 23 de setembro de 2012
À Descoberta de Belver (1/3)
Belver é uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães que dista aproximadamente dois quilómetros da sede. Trata-se de um núcleo populacional relativamente pequeno, mas, como a freguesia agrega Mogo de Ansiães e o bairro do Reboredo, que muitos julgam pertencer a Carrazeda, tem mais de 300 habitantes, número que muitas outras freguesias não atingem.
A origem do nome Belver é frequentemente atribuída à derivação de “Belo ver” ou “Belo viver”. Esta explicação é também dada a respeito de outro Belver, com um bonito e altaneiro castelo, no concelho de Gavião. Não me parece que haja grande paralelismo, uma vez que o “nosso” Belver está implementado numa zona planáltica, na terra fria, entre os 700 e os 800 metros de altitude, mas sem que daqui se avistem largos horizontes, exceção feita ao vale da Cabreira, para os lados de Mogo de Ansiães.
Mesmo a esta altitude há pontos mais elevados que se lhe sobrepõem. Daqui se avista o pinocro, vértice geodésico de primeira classe situado em Fontelonga, o cabeço de Nª Sª da Graça, em Samorinha e o antigo castelo de Ansiães, a que esta freguesia esteve ligada em tempos remotos.
O meu último grande passeio a Belver aconteceu em junho de 2008. Quando, recentemente, voltei à aldeia, algo tinha mudado. Não foram as pessoas, nem as casas, nem a paisagem. O que mudou foi a imagem mental que eu construí da aldeia depois de ler o romance “O violino do meu pai – Partir ou ficar em Trás-os-Montes” da autoria de Campos Gouveia, nascido em Belver em 1947.
Pode ter sido uma dedução errada minha, nunca esclarecida junto do autor, mas a aldeia onde se desenrola parte da história, Belavista, é justamente a aldeia de Belver. Não resisto a transcrever algumas palavras.
Um bom ponto de partida para o passeio é o largo da Praça. É relativamente amplo e está rodeado de casas em granito. Encostado a uma delas está um fontanário, também em pedra, mas já sem gota de água. Algumas foram recuperadas, e com bom gosto, outras mostram as marcas do passar dos anos e da ausência de vida. Marca do tempo é (também) o nome de um beco próximo – Atafona. As atafonas eram uma espécies de moinhos, movidos a tração animal. Um destes terá possivelmente existido neste beco.
Da Praça partem vários caminhos em distintas direções. Sendo necessário escolher, uma hipótese é seguir em direção ao Vale, para norte. O Vale foi antigamente a Gricha. A aldeia era atravessada por uma ribeira onde as mulheres lavavam a roupa. Havia uma pequena ponte de pedra que permitia atravessar a ribeira e, também na Gricha, uma fonte, possivelmente de mergulho, onde bebiam os animais e de onde se extraía água para rega. Hoje o cenário é bem diferente. O leito da ribeira é mais caminho do que outra coisa. A pouca água que por aqui passa é entubada, mal se dando por ela. Disseram-me que a fonte ainda existe, tapada, mas não a encontrei.
O largo do Vale é um dos recantos mais românticos da ladeia. Há uma enorme tília e muitos bancos espalhados, para um momento de sossego. Encostados às casas pendem fartos ramos de rosas vermelhas, ou de cores mais lavadas. Algumas casas destacam-se pela dimensão, pela utilização de granito trabalhado, pelas existência de escadas e patins. Umas mais robustas, outras mais humildes e em ruínas. Na rua, na travessa e no beco, todos do Vale(!), há dos dois tipos. Foi na travessa do Vale que encontrei a primeira surpresa da tarde - uma janela manuelina. É muito simples, parecida com outras que existem em Selores, mas, mesmo assim, digna de referência porque são poucos os exemplares que existem no concelho.
Continua: À Descoberta de Belver (2/3)
A origem do nome Belver é frequentemente atribuída à derivação de “Belo ver” ou “Belo viver”. Esta explicação é também dada a respeito de outro Belver, com um bonito e altaneiro castelo, no concelho de Gavião. Não me parece que haja grande paralelismo, uma vez que o “nosso” Belver está implementado numa zona planáltica, na terra fria, entre os 700 e os 800 metros de altitude, mas sem que daqui se avistem largos horizontes, exceção feita ao vale da Cabreira, para os lados de Mogo de Ansiães.
Mesmo a esta altitude há pontos mais elevados que se lhe sobrepõem. Daqui se avista o pinocro, vértice geodésico de primeira classe situado em Fontelonga, o cabeço de Nª Sª da Graça, em Samorinha e o antigo castelo de Ansiães, a que esta freguesia esteve ligada em tempos remotos.
O meu último grande passeio a Belver aconteceu em junho de 2008. Quando, recentemente, voltei à aldeia, algo tinha mudado. Não foram as pessoas, nem as casas, nem a paisagem. O que mudou foi a imagem mental que eu construí da aldeia depois de ler o romance “O violino do meu pai – Partir ou ficar em Trás-os-Montes” da autoria de Campos Gouveia, nascido em Belver em 1947.
Pode ter sido uma dedução errada minha, nunca esclarecida junto do autor, mas a aldeia onde se desenrola parte da história, Belavista, é justamente a aldeia de Belver. Não resisto a transcrever algumas palavras.
“A aldeia era animada e havia muita mocidade, especialmente raparigas, que os rapazes estavam a ir em bandos para o Brasil, no sonho de fortuna seguramente rápida, a abanar a árvore das patacas; composta de um aglomerado velho de casas de pedra nua, atravessado a meio por um caminho largo que conduzia a Montelongo, capela de dois altares e igreja matriz da Senhora das Neves com torre sineira e relógio accionado por dois pesos de granito, três fontes de mergulho: a da gricha, a do valtalho e a da canelha. Era nesta última que Joaquina recolhia os canecos de água, não só por ser a mais próxima mas também por ser a mais limpa: nas outras duas os animais bebiam com frequência da mesma água das pessoas. Esta tinha uma abóbada de pedra colocada de tal forma que os animais tinham dificuldade em chegar à água e dois degraus laterais que serviam de banco, num plano inferior ao do caminho, onde as pessoas podiam conversar. Além disso, a canelha não tinha muito movimento, pois só de manhã e à noite os lavradores passavam por ali para levar ou trazer os animais dos lameiros da pontesinha, e por isso os namorados a preferiam.”O romance faz uma descrição das habitações, das famílias e do modo de vida na aldeia de “Belavista”. Partamos, então, à descoberta da aldeia que “na uniformidade da pedra escura e da telha vã… se confundia com a paisagem granítica, se dela se não destacassem algumas construções recentes de brasileiros.”
Um bom ponto de partida para o passeio é o largo da Praça. É relativamente amplo e está rodeado de casas em granito. Encostado a uma delas está um fontanário, também em pedra, mas já sem gota de água. Algumas foram recuperadas, e com bom gosto, outras mostram as marcas do passar dos anos e da ausência de vida. Marca do tempo é (também) o nome de um beco próximo – Atafona. As atafonas eram uma espécies de moinhos, movidos a tração animal. Um destes terá possivelmente existido neste beco.
Da Praça partem vários caminhos em distintas direções. Sendo necessário escolher, uma hipótese é seguir em direção ao Vale, para norte. O Vale foi antigamente a Gricha. A aldeia era atravessada por uma ribeira onde as mulheres lavavam a roupa. Havia uma pequena ponte de pedra que permitia atravessar a ribeira e, também na Gricha, uma fonte, possivelmente de mergulho, onde bebiam os animais e de onde se extraía água para rega. Hoje o cenário é bem diferente. O leito da ribeira é mais caminho do que outra coisa. A pouca água que por aqui passa é entubada, mal se dando por ela. Disseram-me que a fonte ainda existe, tapada, mas não a encontrei.
O largo do Vale é um dos recantos mais românticos da ladeia. Há uma enorme tília e muitos bancos espalhados, para um momento de sossego. Encostados às casas pendem fartos ramos de rosas vermelhas, ou de cores mais lavadas. Algumas casas destacam-se pela dimensão, pela utilização de granito trabalhado, pelas existência de escadas e patins. Umas mais robustas, outras mais humildes e em ruínas. Na rua, na travessa e no beco, todos do Vale(!), há dos dois tipos. Foi na travessa do Vale que encontrei a primeira surpresa da tarde - uma janela manuelina. É muito simples, parecida com outras que existem em Selores, mas, mesmo assim, digna de referência porque são poucos os exemplares que existem no concelho.
Continua: À Descoberta de Belver (2/3)
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