terça-feira, 5 de agosto de 2008

Foz Tua - Abreiro (Parte II)

18/07/2008 Esta é a continuação da caminhada - Foz Tua - Abreiro (Parte I)

Depois da minha lenta progressão nos primeiros quilómetros, tinha que acelerar o passo, se quisesse chegar a Abreiro ainda com a luz do dia. Estavam percorridos os primeiros 10 quilómetros, mas ainda faltavam quase 20!
Acelerei o passo, pouco depois passou a automotora para Mirandela. Bem me apetecia apanhar boleia, mas ia desistir sem me ter empenhado a fundo?
Comecei a imaginar - Como iria encontrar o Amieiro? Devia estar completamente iluminado, como flor deslumbrante num jardim.

Seguia absorvido pelos meus pensamentos quando ouvi um guincho estridente vindo do rio. Pensei imediatamente nalgumas aves de rapinas que patrulham as margens. Talvez milhafres, mas são mais frequentes entre Abreiro e Mirandela, nunca nestas zonas de escarpas! Descobri uma mancha negra, na sombra das rochas, junto à água. Pouco depois, uma outra sombra se juntou à primeira. Os meus olhos não queriam acreditar no que seriam aquelas duas sombras, mas o meu coração acelerou. Levei o zoom da máquina fotográfica ao máximo, mas as rochas reflectiam de tal forma a luz do sol, que não conseguia distinguir nada. De repente, algo abandonou as rochas e dirigiu-se para a água. Agora não tinha mais dúvidas, eram lontras (Lutra lutra). Já tinha ouvido falar delas muitas vezes. Olhei as águas do rio à sua procura, mas não esperava encontrá-las ali, e o mais interessante, mais do que uma! Este mamífero tem o estatuto de Quase Ameaçado, embora a sua situação em Portugal seja de Pouco Preocupante. A sua população está em declínio desde os anos 60, 70 devido a um conjunto de factores como a destruição da vegetação rupícola e a poluição das águas. Vivem isoladamente, por isso, talvez tenha presenciado o encontro de um macho com uma fêmea, uma vez que também se reproduzem no Verão. Os machos têm um território que pode atingir até 10 quilómetros. A minha vontade era esquecer a linha e descer para junto das águas do rio, para observar as lontras. Uma delas mergulhou nas águas e nadou com toda a agilidade que lhes é reconhecida, rio abaixo, desaparecendo por detrás da folhagem. A outra permanecia na sombra das rochas, confundindo-se com ela.

Este encontro inesperado deu-me forças para caminhar mais rapidamente. Nunca mais afastei, por muito tempo, os olhos do rio, no intuito de ver novas lontras, mas isso não voltou a acontecer.
Comecei a ver ao longe as primeiras casas do Amieiro. Esta aldeia dá uma imagem única da Linha do Tua. Não há ninguém que passe na linha que não se encante com este postal ilustrado. Parece um presépio montado, daqueles que existia antigamente em muitas igrejas (ainda existe na de Vila Flor), com as casinhas todas encaixadas a diferentes cotas, pequeninas, com uma igreja branca, com uma torre afiada, ainda mais branca, destacando-se do conjunto. A paz era completa! Quem se atreveria a desafiar os mais de trinta graus da uma da tarde? Nem o rio se ouvia, apenas os meus passos e o cantar das cigarras. Um rabirruivo juvenil acompanhou a minha passagem pela estação de Santa Luzia com uma evidente curiosidade.
Começava a ficar preocupado com as reservas de água, mas, tinha esperança de a encontrar perto do S. Lourenço.

Nesta zona da linha há alguns medronheiros (Arbutus unedo), mas os seus frutos ainda mal de vêem. Logo depois da estação de Santa Luzia há uma espécie de pequena cascata. Deve ser um bom local para fazer descidas de kayak.
Uma das curiosidades que se segue, é um rochedo ao alto, perto do quilómetro 15. Desta vez não tinha as nuvens brancas a decorar o céu azul, mas mesmo assim ensaiei várias fotografias.
Pouco depois está um depósito de água, já meu velho conhecido. Está muito sujo, apenas goteja e tinha mau aspecto. Continuei com a água que tinha. Ao chegar ao apeadeiro de S. Lourenço, ainda pensei em subir às termas, em busca de água potável, mas isso far-me-ia perder imenso tempo, além das energias que eram necessárias para subir até às casas que ladeiam as termas. Mais uma vez, decidi arriscar. Só já me restava uma pequena garrafa com água, teria que a poupar, a todo o custo.

Nesta zona da linha aparecem formações rochosas deveras curiosas. Nalguns lugares vêem-se linhas de quartzo incrustado no granito. Também junto às águas do rio se vêem formações semelhantes.
No quilómetro 17 havia outro bebedouro, mas estava completamente seco.
A agressividade da paisagem foi-se suavizando. No Tralhão o rio parece estar domesticado e as vinhas já chegam à linha. O cansaço e a escassez de água foram-me retirando algum prazer de fotografar. Subi à plataforma do apeadeiro para admirar a linha a maior distância.
Numa curva, ao 19º quilómetro avistei a ponte rodoviária da Brunheda, galgando o vale. Uma ave de rapina, a primeira desde o início da caminhada, veio cumprimentar-me, com a sua sombra que rasou a minha cabeça.

Neste local procedia-se à abertura da vala, junto à linha, para colocação de uma estrutura de fibra óptica. Não sei se os trabalhos só decorrem durante a noite, mas não havia ninguém a trabalhar. As máquinas estavam paradas um pouco depois da estação da Brunheda.
Parei uns instantes debaixo da ponte rodoviária. A sombra sabia-me tão bem! Eram três da tarde e o sol queimava-me o pescoço. A estação da Brunheda (agora apeadeiro) está no 21.º quilómetro, onde cheguei, depois de mais de oito horas de caminhada.
Tenho impressão que se passasse uma automotora, teria seguido nela: restavam-me algumas gotas de água; no apeadeiro da Brunheda não consegui encontrá-la, apesar de haver várias casas em redor; o calor era abrasador; as pernas manifestavam pouca vontade de me obedecerem; as fotografias já tinham pouco encanto.
Como chegar até Abreiro?

Esta aventura continua...
Mais fotografias relacionadas com a Linha do Tua no Blog:
A Linha é Tua (http://alinhaetua.blogspot.com/)

2 comentários:

Lurdes disse...

Até parece uma visão aquela fotografia das lontras!
Deve ter sido mesmo emocionante este momento. Dá vontade de ir até lá para ver se esta visão também me passa pelos olhos.
No fim-de-semana passado tive oportunidade de viajar de comboio. Em Foz Tua estavam 37,5 graus.
Que calmaria que esta temperatura provoca!
Depois de ver todas as imagens que nos tem mostrado vou, de certeza, num dos próximos fins-de-semana, fazer a viagem entre Mirandela e Foz Tua para gravar na minha memória todas estas imagens!

Contar-lhe-ei a minha aventura!

Bis

Anónimo disse...

É por estas e outras imagens do nosso trás-os-montes, que ninguém esquece as suas origens.
É de facto uma viagem sem comparação, quer seja ela feita de comboio (infelizmente cada vez mais ameaçado), que como passeio pedestre, pois são imagens únicas.
Ainda me lembro das vezes que na minha juventude iamos tomar banho ao rio (S. Lourenço)e ainda hoje, quando a vida profissional assim mo permite, gosto de juntamente com a familia fazer bons piqueniques nas margens do Tua (Brunheda). è com pena minha e de muita gente que não existam mais condições, tais como parques próprios e dignos de lhe chamarem de merendas, pois não me esqueço, que em alguns encontros de Carrazedenses que foram realizados em Lisboa e em espaços verdes, onde se procura essa qualidade e os mais atentos referiam que era bom termos condições destas no nosso concelho.
Várias freguesias do nosso concelho tem espaços únicos para o efeito, mas falta que os responsáveis metam mãos à obra.
Não nos esqueçamos que esta é a nossa origem.