domingo, 23 de setembro de 2012

À Descoberta de Belver (1/3)

 Belver é uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães que dista aproximadamente dois quilómetros da sede. Trata-se de um núcleo populacional relativamente pequeno, mas, como a freguesia agrega Mogo de Ansiães e o bairro do Reboredo, que muitos julgam pertencer a Carrazeda, tem mais de 300 habitantes, número que muitas outras freguesias não atingem.
A origem do nome Belver é frequentemente atribuída à derivação de “Belo ver” ou “Belo viver”. Esta explicação é também dada a respeito de outro Belver, com um bonito e altaneiro castelo, no concelho de Gavião. Não me parece que haja grande paralelismo, uma vez que o “nosso” Belver está implementado numa zona planáltica, na terra fria, entre os 700 e os 800 metros de altitude, mas sem que daqui se avistem largos horizontes, exceção feita ao vale da Cabreira, para os lados de Mogo de Ansiães.
Mesmo a esta altitude há pontos mais elevados que se lhe sobrepõem. Daqui se avista o pinocro, vértice geodésico de primeira classe situado em Fontelonga, o cabeço de Nª Sª da Graça, em Samorinha e o antigo castelo de Ansiães, a que esta freguesia esteve ligada em tempos remotos.
O meu último grande passeio a Belver aconteceu em junho de 2008. Quando, recentemente, voltei à aldeia, algo tinha mudado. Não foram as pessoas, nem as casas, nem a paisagem. O que mudou foi a imagem mental que eu construí da aldeia depois de ler o romance “O violino do meu pai – Partir ou ficar em Trás-os-Montes” da autoria de Campos Gouveia, nascido em Belver em 1947.
Pode ter sido uma dedução errada minha, nunca esclarecida junto do autor, mas a aldeia onde se desenrola parte da história, Belavista, é justamente a aldeia de Belver. Não resisto a transcrever algumas palavras.
“A aldeia era animada e havia muita mocidade, especialmente raparigas, que os rapazes estavam a ir em bandos para o Brasil, no sonho de fortuna seguramente rápida, a abanar a árvore das patacas; composta de um aglomerado velho de casas de pedra nua, atravessado a meio por um caminho largo que conduzia a Montelongo, capela de dois altares e igreja matriz da Senhora das Neves com torre sineira e relógio accionado por dois pesos de granito, três fontes de mergulho: a da gricha, a do valtalho e a da canelha. Era nesta última que Joaquina recolhia os canecos de água, não só por ser a mais próxima mas também por ser a mais limpa: nas outras duas os animais bebiam com frequência da mesma água das pessoas. Esta tinha uma abóbada de pedra colocada de tal forma que os animais tinham dificuldade em chegar à água e dois degraus laterais que serviam de banco, num plano inferior ao do caminho, onde as pessoas podiam conversar. Além disso, a canelha não tinha muito movimento, pois só de manhã e à noite os lavradores passavam por ali para levar ou trazer os animais dos lameiros da pontesinha, e por isso os namorados a preferiam.”
O romance faz uma descrição das habitações, das famílias e do modo de vida na aldeia de “Belavista”. Partamos, então, à descoberta da aldeia que “na uniformidade da pedra escura e da telha vã… se confundia com a paisagem granítica, se dela se não destacassem algumas construções recentes de brasileiros.
 Um bom ponto de partida para o passeio é o largo da Praça. É relativamente amplo e está rodeado de casas em granito. Encostado a uma delas está um fontanário, também em pedra, mas já sem gota de água. Algumas foram recuperadas, e com bom gosto, outras mostram as marcas do passar dos anos e da ausência de vida. Marca do tempo é (também) o nome de um beco próximo – Atafona. As atafonas eram uma espécies de moinhos, movidos a tração animal. Um destes terá possivelmente existido neste beco.
Da Praça partem vários caminhos em distintas direções. Sendo necessário escolher, uma hipótese é seguir em direção ao Vale, para norte. O Vale foi antigamente a Gricha. A aldeia era atravessada por uma ribeira onde as mulheres lavavam a roupa. Havia uma pequena ponte de pedra que permitia atravessar a ribeira e, também na Gricha, uma fonte, possivelmente de mergulho, onde bebiam os animais e de onde se extraía água para rega. Hoje o cenário é bem diferente. O leito da ribeira é mais caminho do que outra coisa. A pouca água que por aqui passa é entubada, mal se dando por ela. Disseram-me que a fonte ainda existe, tapada, mas não a encontrei.
O largo do Vale é um dos recantos mais românticos da ladeia. Há uma enorme tília e muitos bancos espalhados, para um momento de sossego. Encostados às casas pendem fartos ramos de rosas vermelhas, ou de cores mais lavadas. Algumas casas destacam-se pela dimensão, pela utilização de granito trabalhado, pelas existência de escadas e patins. Umas mais robustas, outras mais humildes e em ruínas. Na rua, na travessa e no beco, todos do Vale(!), há dos dois tipos. Foi na travessa do Vale que encontrei a primeira surpresa da tarde - uma janela manuelina. É muito simples, parecida com outras que existem em Selores, mas, mesmo assim, digna de referência porque são poucos os exemplares que existem no concelho.

Continua:  À Descoberta de Belver (2/3)

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