domingo, 28 de novembro de 2010

À Descoberta de Pereiros 1/3

Esta é a primeira parte de um conjunto de três, de um artigo publicado no n.º 163 do jornal "O Pombal", em Setembro de 2010. O texto é o mesmo, mas terá mais fotografias.

A minha visita a Pereiros, "À Descoberta", aconteceu no dia 27 de Julho. Situada a 12 quilómetros de Carrazeda de Ansiães, é uma das aldeias mais isoladas do concelho, numa depressão que se estende até ao rio Tua, rodeada por altas encostas repletas das mais rijas formas rochosas que existem por estas paragens.
Dada a proximidade com a minha aldeia natal, e também pelo facto de a minha avó materna ser natural desta freguesia, mantive sempre bastante contacto com a aldeia e com os seus habitantes, onde conto com familiares e amigos.
Quando nos aproximamos do povoado, vindos de Zedes, é impossível não repararmos na inospitalidade envolvente. As rochas nuas, deixadas à vista por sucessivos incêndios, intercalam pequenos espaços onde crescem oliveiras, videiras, figueiras e outras culturas de onde, há séculos, os habitantes retiram o seu sustento. Destaca-se também uma formação rochosa que se eleva acima dos 500 metros de altitude a que chamam Castelo. Na minha juventude subi várias vezes a esse local, mas, não encontrei nada que satisfizesse a minha curiosidade. Pela sua posição estratégica foi, certamente, utilizado para aí edificarem um pequeno castro, proporcionando defesa natural às pessoas. Há, no local, muita pedra miúda solta mas não pude constatar a existência de alguma espécie de túmulo que dizem aí existir. Abundantes são também as lendas à cerca de secretos túneis que descem até ou rio Tua, ou mesmo que chegam ao rio Douro. Quem neles entrar não pode sentir medo ou nunca mais sairá.
À entrada da aldeia, um nicho com Nossa Senhora de Fátima, construído em 1993, dá as boas vindas aos visitantes. Um pouco mais adiante, sobre uma rocha, elevam-se umas curiosas alminhas, vigiando o caminho e pedindo uma oração a quem passa. Apresentam um painel de azulejo policromado, com Cristo pregado na cruz e as almas padecendo nas chamas do purgatório, de onde são retiradas pelos anjos.
Alguns metros depois encontram-se os edifícios das escolas. O mais velho, com a data de 1813, é a actual sede da Junta de Freguesia. Da escola que aí funcionou, quando as crianças eram às dezenas falou-me Adérito Fidalgo, recordando com orgulho algumas das matérias que aprendeu. Eu apenas recordava o espaço como sala de baile, centro de entretenimento aos domingos à tarde.
No seu interior pude admirar um conjunto de taças e troféus conquistados pela juventude de Pereiros em provas desportivas e a bandeia da freguesia, com símbolos representativos do passado e do presente da aldeia: uma ponte, um ramo com pêras, uma mitra e o rio. O rio representa o Tua; as pêras relacionam-se com o nome da aldeia, Pereiros; a mitra recorda a importância eclesiástica que a aldeia teve em tempos idos, tendo sido curato amovível “ad nutum” do bispo de Bragança e o padroeiro, S. Amaro. Da ponte falarei mais tarde.
Não muito distante do edifício da antiga escola está a “nova”, também ela privada do barulho das crianças, uma vez que está encerrada já há alguns anos. No recreio, onde agora existe um polidesportivo, joguei eu futebol com os meus colegas de escola primária, em entusiásticos intercâmbios que fazíamos com os alunos de Pereiros, por altura do S. Martinho. O recinto da escola é utilizado pela população como recinto de festas, ganhando uma nova vida.
Pela rua Gil Eanes chega-se ao Cabeço ou Alto de S. Amaro. É talvez o ponto de onde se tem uma visão mais completa do povoado e também o local onde a evolução é bastante evidente. A par das bonitas residências que ali têm sido construídas, há uma área ajardinada, sombra, bancos e um nicho dedicado ao padroeiro da aldeia, S. Amaro. Neste local também se encontra um cruzeiro, centenário, com bastante importância religiosa. A ele se deve a designação “Calvário”, também atribuída. Por altura da Páscoa realizava-se uma importante procissão, com o Senhor dos Passos a percorrer algumas ruas da aldeia e Nossa Senhora das Dores outras. No Calvário dava-se o Encontro e era feito o sermão. Esta tradição perdeu-se já algum tempo, sendo o Sr. Padre Valentim (muito querido em Pereiros) o último a realizá-la.
Ao passearmos o olhar pela aldeia é impossível não repararmos na imponente igreja, uma das mais belas do concelho. Como é possível que uma aldeia tão isolada tenha um templo com esta dimensão? A resposta encontra-se na história e na importância da aldeia como paróquia.
Os parcos vestígios arqueológicos existentes no Castelo não tornam possível clarificar a história mas, segundo alguns especialistas, os pequenos fragmentos de cerâmica de fabrico manual poderão situar a construção na idade do ferro. Poderá também integrar esta linha do tempo uma espécie de lagareta, talvez para a produção artesanal de azeite, escavada no rés-do-chão de uma casa no largo Luís de Camões . Tirando estes dois marcos históricos os restantes, igreja, fontes, ponte, etc., terão que ser referenciados, no máximo, à idade média tardia, ou, o mais provável, já à idade moderna.

Continua aqui -  À Descoberta de Pereiros 2/3

3 comentários:

Isabel disse...

Que saudades

Anónimo disse...

Gostaria de felicitá-lo pelo excelente trabalho que aqui desenvolve, para os que se encontram fora do seu concelho é uma excelente forma de matar saudades destas paragens, e até de conhecer recantos que nas curtas férias não tem possibilidade de procurar.
Obrigada.
Obs: Se lhe for oportuno gostaria que falasse um pouco da bela aldeia de Luzelos. Cumprimentos.

Hernâni Fidalgo disse...

Os Pereiros são uma caixinha de surpresas tanto na paisagem como no património. Só uma História muito antiga justifica uma herança tão surpreendente.O fim das ordens religiosas ditou o seu declínio.Em relação ao património edificado estou à espera da publicação das memórias de Ansiães II de Cristiano Morais para usar alguns dos documentos.
Um abraço
Hernâni