quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

À Descoberta de Pinhal do Norte (3/3)

Continuação de: - À Descoberta de Pinhal do Norte (2/3)
O café do senhor Gonçalves é um local de paragem obrigatória. Quer pelo espaço acolhedor, quer pela simpatia do dono, quer pela vista que daqui se tem, em direção à aldeia e à serra, a mesma que me escondia o Pinhal, quando eu era criança.
Com sorte, talvez se encontrem alguns residentes, com tempo de sobra e cheios de histórias para contar. As tradições são um bom assunto de conversa. Seria interessante saber que, por altura do entrudo, se faziam os “casamentos”, por um grupo colocado na Fraga e outro na Serrinha. Mas, pior do que ser “casado” com alguém de quem não se gostava, era receber de dote uma das partes do burro de quem nem o diabo se lembrava, como a pele dos testículos, ou algo do género. Esta tradição da “partilha do burro” também se realizava em Zedes e noutras aldeias do concelho. Também tradição no Pinhal do Norte era fazer um boneco de palha (de nome Entrudo), com um enorme nabo colocado cuidadosamente nas partes baixas, que era colocado durante a noite à porta das viúvas que se portavam mal. Se algumas tradições se perderam, como as cascatas nos Santos Populares (chegaram a fazer-se 3, uma no Robalde (Arrabaldo), outra na Portela e a terceira no Terreiro), a fogueira do Galo continua a fazer-se, bem como as bugalhadas (por altura da Quaresma).
Outros bons assuntos de conversa são as rochas com formas interessantes ou as fontes. Além da lenda do Penedo Furado há outras histórias menos conhecidas como o Meroiço da Ruiva (de onde atiravam as mulheres “pecadoras” acabando por matá-las à pedrada!), a Frada da Moira (onde desapareceram pessoas que vinham da feira de Carrazeda) ou outra rocha onde se ouvem os sinos de Braga (depois de os mais incrédulos lá terem batido com a cabeça) ou a Capela do Diabo. Quanto a fontes, também há bastante para saber: há uma fonte natural conhecida como Gricha da Burra (que me fez lembrar uma outra fonte que existe em Freixiel, conhecida como Crica da Vaca); junto ao rio Tua existe uma fonte conhecida como fonte Férrea, com água rica em ferro, muito procurada noutros tempos. Também existiu uma fonte no caminho para Areias, onde bebiam pessoas e animais, junto à capelinha de Nosso Senhor dos Aflitos, quando iam e vinham da feira.
Seguindo pela rua da Escola encontra-se, como é natural, a antiga escola primária. A erva cresce no recinto, à falta de pés para a pisarem.
O seguinte ponto de interesse é a Cruz. Misto de cruzeiro e de alminhas, faz com o cedro que cresce ao lado um conjunto interessante. Há alguns anos atrás estiveram aí umas alminhas feitas pelo sr. António Catarino, conhecido como o Santeiro do Pinhal. Essas alminhas foram roubadas e nunca mais aparecerem, mesmo com intervenção da judiciária.
Procurei a casa e a oficina onde trabalhou esse artesão, infelizmente já falecido. Não me foi possível encontrar nesses locais nenhum trabalho seu, mas há na aldeia várias pessoas que os têm, principalmente Cristos na cruz, que ele fazia com mais frequência.
O percurso continua pela rua do Outeiro. Para trás ficou mais um café, junto à estrada, onde se situam um conjunto de bonitas construções mais recentes. É também nessa zona da aldeia que se situa o polidesportivo e o cemitério.
Da rua do Outeiro tem-se uma nova vista sobre a rua de S. Bartolomeu e a rua do Castelo. Mas, se olhar a paisagem nos delicia, por vezes é sob os nossos pés que se escondem alguns segredos. Numa das ruas mais características do Pinhal, a rua do Arrabaldo, existiram duas fontes que perduram na memória de muitos. Uma seria uma fonte de mergulho, em arco, coberta a granito e com uma pedra de cantaria à entrada. Os miúdos metiam-se no seu interior e sentavam-se numa rocha que existia no extremo. Do lado direito havia algumas pedras (ainda visíveis) que auxiliavam as mulheres a colocar os cântaros à cabeça.
Um pouco mais abaixo, no lado oposto da rua, existia outra fonte, esta acima do solo. Esta construção cúbica tinha a abertura virada para o Terreiro, apresentando sobre ela duas taças e um cálice, tudo em granito. Ambas as fontes pereceram face à necessidade de alargamento e pavimentação da rua. Da primeira, a fonte do Canto, ainda subsistem algumas pedras e um pequeno depósito sob uma tampa de saneamento, que passa desapercebida; da segunda talvez ainda restem algumas pedras, guardadas nalgum quintal particular. Não muito longe, numa rua que sai de junto do fontanário do Terreiro existe uma antiga fonte de mergulho, com marcas evidentes do muito uso que lhe foi dado noutros tempos.
Chegados ao ponto de partida, talvez estejamos preparados para nos afastarmos um pouco das casas e procurar uma vista panorâmica da aldeia. Há um caminho que desce em direção ao vale seguindo para as duas capelas que existem fora do povoado: uma é a capelinha do Senhor dos Aflitos, a outra a capela de Santa Marinha.
 A capelinha do Senhor dos Aflitos é muito pequenina. Fica situada junto ao caminho que liga Pinhal do Norte a Areias, Amedo e Carrazeda de Ansiães (pelo cabeço Doudo). A localização junto ao caminho levou-me a pensar numas Alminhas. Aliás, há uma pedra junto à capelinha que tem o corte perfeito de um retábulo, podendo até imaginar-se o local do mealheiro. A imagem do Senhor crucificado é frequente nas Alminhas. Nenhuma das pessoas que questionei me deu a mais ligeira indicação da sua existência.
A capela de Santa Marinha fica mais distante da povoação, em pleno vale. Apesar de devota a Santa Marinha, esta capela está associada à festa de Santa Eufémia, realizada anualmente a 15 de Setembro. A imagem de Santa Eufémia sai em procissão da igreja matriz para a capela, onde se realiza uma missa campal. Findas as celebrações, a procissão faz o caminho de regresso à aldeia.
O lugar é calmo, fresco e na primavera cheira a violetas. Sentados em redor de uma mesa de pedra à sombra das acácias é o momento e o local para um balanço. Pinhal do Norte é uma aldeia que sofre do mesmo mal de praticamente todo o nordeste transmontano, a desertificação. O amanho da terra que deu sustento a muitas gerações é hoje uma atividade de risco e para uma franja muito pequena da população. A degradação de muitas habitações é notória, mas o carinho e gosto na recuperação também é visível. Cabe às instituições da freguesia lutarem pela preservação do património, incentivarem a manutenção das tradições e manterem um ambiente limpo e saudável para residentes e visitantes.
Foi um prazer descobrir Pinhal do Norte.

Artigo publicado no jornal O Pombal, em Outubro de 2011

1 comentário:

euroluso disse...

Conheci o santeiro nos anos oitenta do século XX e tenho pena de não ter voltado a encontrá-lo antes dele morrer. Dele guardo uma foto com um cristo na cruz. A Junta de Freguesia ou a Câmara não fazem nada para que não se perca a memória desse artista?